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segunda-feira, 17 de junho de 2019

SANTANA DO ALFIÉ - Paulino Cícero de Vasconcellos


     O Alfié é uma comunidade humana pequena, mas senhora antes e agora de uma vasta área territorial. E debaixo de seus telheiros se passaram muitas histórias. De suas terras nasceram as cidades de Dionísio, São José do Goiabal, Marliéria, Jaguaraçu e mesmo Timóteo, que experimentou pequeno passeio geográfico na jurisdição de Coronel Fabriciano. No princípio dos tempos, havia um conflito que não tinha inspirações políticas. Era a origem do nome a causa das discordâncias. Uns falavam que Alfié era forma sincopada de Alto e Frio. Alto e frio é, gerou Alfié, que chegou a Alfié. Muita montanha, fraldas do Espinhaço, tudo favorecendo a tese de que não abria mão a porção etílica da vila.       Outra versão, com mais densidade histórica, atribuía à vila no século passado o abrigo de uma balança destinada a cobrança do quinto do ouro. Assim, balança é fiel e o bateeiro do Rio Piracicaba dizia: “vamos ao fiel pesar os quintos”. É fácil aceitar que “ao fiel” tenha sido a matriz etimológica de Alfié. Do Alfié que celebramos. Isto para não falar no guardião fiel a seu dever no aquartelamento de Guy Thomas de Marlière, quando no século XIX, vindo da Europa, em fuga de Junot e das forças napoleônicas, o militar francês na expedição de Dom João VI, logo se tornou o Governador dos índios selvagens, botocudos e antropófagos do Rio Doce, estabelecendo ali um dos seus quartéis. Conta a lenda que diante de um ataque avassalador dos indígenas todos os membros do corpo militar caíram no mato – que ninguém é de ferro. Todos, menos um, o impoluto e fiel defensor e vigia da cidadela.


      Há trezentos anos, o desenho urbano da terra é o mesmo. Velhas casas coloniais, que se alinhavam a partir da Rua dos Moraes. Nada de luxo, que luxo lá não havia. Seguia-se um trato de via destinado ao comércio, culminando num pequeno largo, de onde saía a rua que passava pela porta da igreja e retornava á Rua dos Moraes. Calçamento com destinação imprecisa. Não era paralelepípedo, poliédrico não era também. Eram pequenos matacões de rocha ou algum bem mineral, que escassamente se ajustavam, mais servindo para evitar barro e lama onde as pessoas e animais passavam.

 

      
A pequena igreja de Santana é seu monumento mais significativo. Preserva com fidelidade o padrão colonial das igrejas mineiras e me lembra bem a igreja de Nossa Senhora da Praia do Ó, em Sabará.  À esquerda da nave existe uma porta que se abre para uma parte do adro e logo ali, bem pertinho uma enorme pedra de forma lamelar. Ela cobre o túmulo da minha avó, da Maria Constança de Moraes, mãe idolatrada de meu pai. Sempre que passava pela porta da igrejinha, debruçava os olhos sobre a improvisada lousa, fazia silenciosa prece para minha avó, perguntando-me em seguida: quantas missas terá celebrado no altar desta igreja o meu bisavô, Monsenhor Antônio Fernandes Lellis.

    

  Para ele Alfié era apenas a história de seus começos. Porque nascido em Santa Bárbara em 1.847, ordenado sacerdote no Caraça em 1.876, foi ao Alfié que o guiaram as ordens episcopais e seu senso de obediência. E logo entre os bons conselhos que distribuiu  estava a boa arte do matrimônio, que ele ensinava pacientemente, dia após dia, à já prometida noiva Lucinda de Assis Vasconcelos, bela jovem da Fazenda dos Assis.  E a família punha gosto naquela manifestação de dedicação paroquial, que se traduzia numa presença quase constante na fazenda. Eis que  Lucinda começa a ganhar novos ares, a engordar, a vestir-se com roupas mais  generosamente largas, a comprimir o abdômen, de tal sorte que, faltando perto de quinze dias para o nascimento do fruto proibido, ela se mudou para o moinho da propriedade, onde viveu escondida dos olhos dos pais e do mundo e onde nasceu o filho João Damasceno, meu avô, que João do Moinho ficou sendo, no trato futuro até com seus colegas de escola.

      Mas o Monsenhor não era homem do escondidinho. Queria as coisas às claras. Não foi por outra razão que ousou abandonar a batina, com grave risco de excomunhão, estabelecendo casa na rua, onde tiveram ele e Lucinda mais dois filhos: José Bebiano e Francisca Prisca. E ele trabalhava muito. .Além de atender outras paróquias nos tempos de sacerdote, foi duas vezes eleito vereador à Câmara de São Domingos do Prata. Trabalhou como tropeiro e em outros negócios que lhe permitissem alimentar a família e educar os filhos.


      Mas o homem põe e Deus dispõe. E muito do que ocorre na vida de cada qual é fruto de acontecências. Assim foi com o Monsenhor, que, certo dia, governava uma tropa de carga pelas trilhas da região, quando depara, inopinadamente, com um grupo de cavalarianos, também na trilha, sob as frondes de um capão de mato.


      Era o Arcebispo de Mariana, Dom Silvério Gomes Pimenta, em visita pastoral por sua jurisdição eclesiástica. “- que é isso, Lellis, você com barro até no peito. Você não precisa disso. Foi dos melhores alunos da turma e respeitado por sua firmeza e liderança”. Haviam sido amigos e colegas nos bancos do Seminário. E lhe sugeriu ir à Sé, procurá-lo em Mariana, que o enviaria a Roma para levantar seus interditos de excomunhão e obter a purificação de sua vida. Quando voltasse – disse-lhe na Sé – teria paróquias distantes dos sítios dos seus romances para evitar tentações futuras.


      Esta foi a sugestão e assim se procedeu. Em 1.903 vai a Roma, de onde tenho suas fotos de sobrepeliz tiradas na “Via Principe Amedeo”, número três. 

      Sua primeira designação foi para a paróquia de São José del Rey – hoje, Tiradentes em homenagem ao filho da terra e protomártir da independência. Quarenta anos atrás, fiz uma visita à terra e vejo que deixou na memória de algumas senhoras a imagem de Padre bravo e gritalhão. Lá sepultou seu segundo filho, Bebiano, que morreu solteiro aos 27 anos de idade. O meu avô, João Damasceno, já havia falecido aos 24 anos, de tuberculose, quando meu pai cumpria seu segundo mês de vida.  Chegando aos tempos de ginásio, meu pai é por ele internado no Colégio São Francisco da vizinha São João Del Rey.


      Depois o leva para a Academia de Comércio de Juiz de Fora. E, finalmente, quando se torna vigário de São Geraldo, na Mata Mineira, o avô e padrinho o interna no Colégio Viçosense, onde termina o ginásio e faz o curso pré-médico.


      O que vale lembrar é que seu auxílio foi permanente e sem reservas. Quando meu pai, às suas expensas, cursava o segundo ano de medicina em Belo Horizonte, recebe do Monsenhor – agora levado para a igreja do Carmo no Rio de Janeiro - uma carta em que falava no peso dos anos e nas espórtulas eclesiais que estavam minguando. Em suma, chega a sugerir-lhe uma mudança para o Rio, residindo na Casa Paroquial e lhe aliviando despesas de que não havia como fugir. Assim se explica a ida do jovem universitário José Matheus para a Faculdade Nacional de Medicina, na Praia Vermelha. E o mesmo fez com José de Assis Santiago, primogênito da filha Francisca Prisca, que foi aquinhoada com o “Santiago” no ato do esponsalício e que se tornou brilhante advogado e jurisconsulto em Minas.


      O Monsenhor nunca mais tornou ao Alfié. A terra continuava na mesmice de sempre, fazendo uma agricultura rudimentar e de subsistência, cortando e vendendo lenha de suas matas. De novidade o que apareceu na terra, no espaço de quase cem anos, foram três iniciativas rurais que se cobriram de sucesso. A primeira, no início do século passado, foi a implantação da Fazenda do Bicudo, onde o Dr. Raul de Caux implantou os Vinhedos do Alfié, chegando, em 1.916, a comparecer nos relatórios da Secretaria da Fazenda como o maior produtor de vinho de nosso estado, com direito a fotografia, que especulava detalhes das “fermes” francesas para cá transplantadas.

      A segunda, bem mais recente, foi a implantação da fábrica de cachaça Brasília, pelo Sr. João Cassimiro. Pinga – diga-se desde logo – digna dos arrepios da região, e que hoje se tornou privilégio dos etilistas do Vale do Aço. A terceira, mais ampla e bem mais florescente, foi a virada florestal, que teve como carro chefe a Florestas Rio Doce, cobrindo nossa geografia de eucaliptos e pinus e oportunidades de trabalho.


      Quando me ocorre lembrar da primeira visita que fiz a Alfié em companhia de meu pai um equipamento lá me impressionou profundamente. Era o sistema de abastecimento de água, que corria ao longo da Rua dos Moraes, pela banda dos quintais. Suportadas por uma centena de ganchos fincados ao solo, corria uma canalização feita de grossos bambus cortados ao meio, e aquilo ia correndo rua abaixo, de onde cada morador fazia a derivação de seu abastecimento, também, de bambu mais fino.


      Quando assumi a Prefeitura, fiquei com grave responsabilidade política. Eu tinha de reverter e precisava de qualquer forma de reverter o quadro político do distrito. É que lá, como em Ilhéus do Prata, dois de nossos seis distritos, eu sofrera uma acachapante derrota eleitoral. Meu pai certo dia, abatido com aquele resultado, lembrou-me de que lá apenas não nascera, mas dos dois meses de idade e orfandade até sua graduação aos 24 anos, lá fora sua terra, onde tivera muitos colegas na escola de seu avô e mestre Cristiano Moraes. Chegou a indagar-me se não seria mais prudente buscar a emancipação do distrito ou mesmo anexa-lo a outro município. Eu, então, lhe prometi que faria a reversão política da terra. Disse-lhe que as coisas iam mudar. Afinal, é do Alfié que vieram todos os outros municípios de nossa Comarca.


      A liderança política era sempre expressa pelo vereador Oswaldo Gomes da Silva, farmacêutico, parteiro, enfermeiro que gostava de fazer e sabia fazer política. Acho curioso lembrar que sua farmácia só trabalhava na manipulação. Não tinha medicamentos em estoque. E havia registrado um produto – o famoso Tempero Quitandinha – também manipulado na base não sei de que, e era um sucesso. Condividiam-lhe a liderança algumas figurar nobres da terra como José Cupertino, Guilherme e Lilica, Pedro e Dona Regina – todos da família Pimentel e, mais, Santos Vasconcelos com seu sogro José Gomes, o professor e músico Manuel Onésimo, Otávio Martins, Geraldo Coura, Pedro e José Domingues, Zé de Rosa e outros… Quando partiam numa direção era para lá que todos caminhavam.

Paulino Cícero com lideranças no Alfié em 1951

       Como se prestasse contas ou homenagens à terra das minhas origens, foi lá que inaugurei duas fases novas de minha vida: nas ruas do Alfié, bem ao lado da Igreja de Santana, minha primeira ação como advogado recém-formado. Também no distrito, no povoado de Bomtempo, a inauguração da primeira escola, como prefeito municipal.


      Como advogado fui chamado pelo Raimundo Papo para dirimir uma questão de lindes com o vizinho de lote. Onde passava a divisa dos dois lotes? – Esta era a questão. Levei comigo no jipe o Inhô Gomes, amigo e experimentado agrimensor.  A questão se cingia, realmente, à gigantesca dimensão de um bambuzal, que crescera para todos os lados e impedia definir divisas certas. Conversei muito com os litigantes, enquanto Inhô colocou o seu teodolito em operação e saiu com uma machadinha fazendo talhos nos bambus. Terminou dizendo: Aí estão suas divisas. Os desavindos se confraternizam e completa Raimundo Papo “eu chamei, eu tenho que pagar. Você vai receber um queijo, um cantante e um Santo Antônio de madeira, porque me disseram que Dona Célia gosta muito destas velharias de casa.”


      Passaram-se 55 anos até hoje. Não comi o queijo do Raimundo Papo, nem sacrifiquei qualquer cantante de seu obséquio e Santo Antônio, bem Santo Antônio continua no céu. Lá em casa ele não chegou. Mas triste termina a história. Poucos anos se passaram e em nova questão divisória, na localidade de Trindade, ele morre assassinado pelo vizinho, na presença do oficial de justiça.


      A escola que inaugurei era simples. Feita de pau-a-pique, toda pintadinha de branco e com bancos bem sumários. Comprei, antes de sair para a inauguração, 40 cadernos, 40 lápis escolares e um quilo de bala bem doce. O velho caminhão Ford, com 12 anos uso, especialista em transporte de lixo grosso e trazer os defuntos da roça, eu já o mandara à sede da vila para levar os seis membros da banda de música comandada por Manuel Onésimo. Entreguei o material didático à professora e fiquei sorvendo a alegria do povo, rodeado por todas as figuras gradas da terra. Até hoje não entendo porque a banda ao invés de executar o hino nacional, resolveu atacar o hino à bandeira. “Salve lindo pendão da esperança...” Alturas tantas, o improvisado coral não sabia o texto da música e começou a cantar o estribilho repetindo-o com a solidariedade da banda de música. Aí ocorre o inesperado. A professora, cantando o estribilho, sobe os três degraus, desfaz o nó da fita verde e amarelo, roda a chave, e traz lá de dentro um dos cadernos em cujo verso se inscrevia o hino à bandeira. Do alto da escada, localizada a matéria, dá o comando e todos acabamos com muitas palmas cantando a peça completa. Havia muita alegria. Houve muito discurso e declamações. Seguiu-se a carne cozida com farinha do vereador Oswaldo servida a todos com generosas doses de Brasília, em cuja fila não faltaram as crianças estimuladas pelas mães. Era o começo da virada.


      Sempre gostei muito do Alfié e de sua gente. Cansado, lá era meu refúgio. Quando passou a eleição de l.962, que foi a primeira virada e eu me elegera deputado estadual, retornei à Prefeitura após o pleito e ela estava em frangalhos financeiros. Eu estava eleito, mas eram cobradores demais e o Alfié era meu refúgio. Lá para o Bar do Zé de Rosa, velho companheiro, relaxava com uma boa linguiça assada e a generosa Brasília. Ou jogava uma partida de sinuca. Ou era a casa do Zé Domingues, às vezes com direito à banda de música, enquanto éramos regalados com porções generosas de jiló à Alfié.


      Fizemos muitas coisas boas em Alfié. Melhoramos suas estradas, até de as de cavaleiro. Integramos o distrito na rede da Cemig e instituímos na época o curso ginasial. Como esquecer, por exemplo, que foi num baile de sete de setembro, com direito ao Lumumba, dos Cantores de Ébano, que lancei a candidatura de Antônio Guido Rolla a Prefeito do Prata, onde realizou a mais ampla, geral e irrestrita ação administrativa, que minha geração testemunhou? E o Padre José Índio, meu primo querido, que chegou à paróquia e se incorporou à nossa roda, condividiu nossos copos, e de lá, como a dizer que a história se repete, de lá saiu para o mundo, casado com a Zenaide do Sr. Otávio, e, nos braços, uma linda filha nos seus primeiros anos de vida.


     Velhos e bons tempos!


Paulino Cícero de Vasconcellos
Do livro MEUS CADERNOS - De São Domingos do Prata a Brasília









quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O Monsenhor Antônio Fernandes Lellis - Paulino Cícero de Vasconcellos


         Nunca me considerei um grande redator, mas gosto de vez em quando, de prestar alguns testemunhos, de contar algumas histórias. -  todas, invariavelmente, verdadeiras.
     Cessados os meus mandatos parlamentares e a função de secretário de estado em quatro unidades do governo de Itamar Franco e, mais depois de  esgotada a função de presidente do sindicato da indústria de ferro de Minas Gerais, que havia durado mais de três anos, a mão começou a coçar, desejosa, como fora, de renovar o contato com a minha velha Parker 51.
     Hoje, sobre o título de Meus Cadernos narrei episódios que convivi com o presidente Sarney, com o presidente Geisel, com João Figueiredo, Fernando Henrique e meus tempos de ministro de estado de minas e energia e, até mesmo episódios  com  alguns governadores de estado de várias épocas e mesmo algumas recordações e realizações dos tempos em que, aos 21 anos, iniciei meu mandato de prefeito de São Domingos do Prata. Não deixei de fora sequer as aventurosas lembranças das viagens universitárias e até o alvoroço das pensões estudantis, de que guardamos memória inapagável e onde velhas estimas foram construídas e sólidas amizades implantadas pelo resto de nossas vidas.
     Hoje, estou sentindo me em dívida comigo mesmo. É que relancei o olhar sobre as histórias dos começos de minha família, vejo passar diante de mim  hieráticas figuras de tios, avós, bisavós, muitos dos quais só conheci por fotografia. Vejo que a todos, pelo convívio ou pela inacreditável transmissão do dna muito fiquei a dever-lhes.
    Mas um deles houve, que se situa na  pretérita terceira geração, para o qual aumento minhas preces e os meus rogos na tentativa de resgatar um pouco de nossa dívida familial. Trata-se do meu bisavô Monsenhor Antônio Fernandes Lellis.
     Sua história é a de alguém que enfrentou situações e momentos contraditórios, exigindo dele corajosas decisões pessoais, a cujas  consequências e responsabilidades jamais fugiu.
    Fico impressionado com o diferencial de vida entre ele e o padre Amaro, figura central da obra de Eça de Queirós. Enquanto este com o preço da morte e da covardia criou o anti exemplo da nobreza humana, o meu bisavô, pelo contrário, assumiu plena responsabilidade de seus atos, elevando-se numa escala de grandeza humana e de responsabilidade e respeito aos concidadãos.
     Ele nasceu em Santa Bárbara, de família humilde no ano de 1847. Como disse seu filho e  meu avô, graduado em farmácia no ano de 1902 em Ouro Preto, ele nasceu pobre e entre os pobres queria viver. A pele escura própria daqueles que experimentaram no Brasil o opróbrio e a vergonha dos filhos de África, que sustentaram a nossa política escravocrata, colonialista e desumana.
     Em 1876, recebe no convento de N.S. Mãe dos Homens, no Caraça, o sacramento da Ordem, tendo deixado entre quantos o conviveram naquela casa de formação religiosa, um exemplo de notável esforço pessoal, que sabia com ele edificar e liderar naquela colmeia religiosa. E fica trabalhando como padre secular na Diocese de Mariana à qual era vinculada o Caraça.
    É designado poucos anos após para a paróquia de Santana do Alfié, que tinha sob sua responsabilidade as de São Sebastião de Dionísio e a de Santa Isabel, atual Juiraçu -  todos pertencentes hoje ao município de São Domingos do Prata, que tinha à época 2700 km² de território.
     Curiosamente, recolhi dele um exemplo de vida, que foi muito falado e comentado por seus concidadãos. Muitos anos passados os mais antigos diziam de sua voz forte, um pouco tonitruante, somados à forma direta que usava para expulsar da igreja, nos horários de missa, as mães de família, que carregavam nos braços os filhos chorões.
    Sediado em Alfié, fez desde logo muitas amizades. Uma delas, a do Francisco de Assis Vasconcellos, residente na fazenda dos  Assis, implantada no território de Antônio Dias do Rio Abaixo, cuja jovem filha Lucinda, preparava-se para o casamento, que na verdade nunca ocorreu.
Vó Lucinda
     É que nas suas viagens à fazenda para prestar à filha a necessária instrução religiosa para o casamento, elas foram tornando-se cada vez mais constantes e, encontro após encontro, cresce-lhes a intimidade “inter pares”. Pouco depois Lucinda estava grávida. Procuram esconder a realidade da família. Valem-se de roupas mais largas, outras vezes comprimia o volume do ventre ao ponto em que não podiam mais ocultar o fato. É quando, em decisão corajosa, Lucinda se muda da Casa Grande da Fazenda para o moinho de milho, onde prepara a sua cama e vive dias deveras difíceis.
     Somente quinze dias após o seu nascimento o jovem João Damasceno é dado à luz da família e do povoado. E na linguagem irreverente do povo carrega até aos vinte e quatro anos, quando faleceu jovem farmacêutico, todos passam a chama-lo de “João do Munho” ou “João do Moinho”.
     Eu já era prefeito de S. D. do Prata, quando me encontrei com um velho senhor nas ruas do Alfié e, feita a apresentação, ele me disse com absoluta naturalidade: “ Ah! Você que é o nosso prefeito, é o neto do João do Munho. Foi meu companheiro de escola. Gostava muito dele”.
     O concubinato eclesiástico não era raro nos primeiros tempos da nossa colonização. Tanto mais que a primeira diocese implantada no interior do país, fora da zona litorânea, havia sido a de Mariana. Lá chegou Dom Frei Manuel da Cruz, da diocese de São Luiz do Maranhão para ocupar o bispado marianense, após uma viagem que durou, simplesmente, três meses.  Não havia- forçoso é reconhecer- um método de assegurar aos padres e freis que iam designados para as mais longínquas paróquias do nosso interior, um método de assistência espiritual que os apoiasse nos percalços e desafios da sua vida religiosa.
     O Monsenhor, no entanto, pareceu não gostar daquela situação dúplice. Pendurou num cabide a velha sotaina, montou casa na vila, abandonou o ministério religioso e, convivendo com a mulher Lucinda, trabalhava com uma tropa de animais levando e trazendo mercadorias, pelos ínvios caminhos que riscavam as matas da região.
     Pouco tempo depois, já eram três os seus filhos. Além do João Damasceno, meu avô, tinham vindo ao mundo o José Bibiano de Vasconcellos, que depois se graduou em engenharia e cedo, muito cedo, aos vinte e sete anos de idade foi depositado em uma urna sepulcral em Tiradentes, onde seu pai, o Monsenhor, foi por tempos não muito longos designado vigário da Paróquia de Santo Antônio, certamente a mais charmosa de nossas atuais cidades mineiras de turismo. E, por final, veio à adorada figura de Francisca Prisca  Santiago- que, em família, todos chamávamos de vovó Chiquinha.
    Descendência só vieram de João Damasceno e Francisca Prisca, mas a despeito do quanto falamos, todos eram uma família só, em seus desdobramentos e multiplicações gerados pelo etos da vida. Mas, sobretudo, era uma realidade nova que estava surgindo.
     Entre os tempos em que o Monsenhor havia abandonado o hábito religioso, ficou residindo mesmo em Santana do Alfié, não distante da casa do sogro e zelando  uma tropa de animais que ia com frequência à estação de estrada de ferro de Santa Bárbara, levando as mercadorias da terra e de lá trazendo azeite, sal, tecidos, calçados e quanta coisa mais pudesse trazer para a terrinha em que morava.
Dom Silvério Gomes Pimenta
    Mas deu-se um dia em que nas suas andanças tropeiras, em meio à lama alta do caminho, encontra-se com a alvoroçada equipe de caminhantes, carregando um pálio, que protegia o bispo de Mariana, Dom Silvério Gomes Pimenta, que fora o seu colega e amigo nos tempos de antanho, quando jovens seminaristas.
    Naturalmente se reconhecem e lá veem os ralhos diocesanos: “Mas como pode você, Lellis, andar atrás de uma tropa de burros com barro até o peito? Lembra-se do Seminário? Você era líder entre companheiros, muito estimado por todos e ainda obtinha sempre as melhores notas de nossa turma!”
    Ao que Lellis responde: “ Está bem, senhor Bispo, concordo com o senhor, mas quem vai tratar dos três meninos que estão lá em casa e da mãe deles?”.
      “Vamos achar uma solução para isso”, disse Dom Silvério. “Quando passar perto de Ouro Preto ou Mariana, vá até o seminário que desejo muito conversar com você”.
      Esta é a porta que lhe foi aberta. Conversou com o eclesiástico em Mariana, conversou com Lucinda longamente todos os problemas da família e, então, partiu para Mariana, buscando os caminhos de Roma, levando na mala todos os apetrechos que presumia necessitar.
      Tenho comigo três fotos do agora novamente reverendo Antônio Lellis Ferreira, portando sua batina preta, outra com a sobrepeles- todas tiradas na rua Príncipe Alberto, n° 3, logo ao lado da Piazza Della República, em Roma que visitei cem anos depois em companhia de minha esposa e, curiosamente, ainda era um estúdio de fotografia.
      Retornando ao Brasil, teve uma sequência de novas atribuições dentro da própria estrutura  eclesiástica. Todavia desde então não mais retornou à região de Santana do Alfié. Entre outras responsabilidades recebeu a de comandar a Igreja de Santo Antônio, em São José del Rei, hoje denominada cidade de Tiradentes. Mais tarde, vigário em São Geraldo, de onde foi transferido para a Igreja do Carmo, na cidade do Rio de Janeiro.
João Damasceno de Vasconcellos
      Nesta sua vasta peregrinação por paróquias e estados sempre agradecia que nada houvesse, em qualquer tempo,  faltado a sua antiga companheira e filhos, até mesmo porque em Tiradentes já lhe havia falecido, aos 27 anos de idade, o filho José Bebiano de Vasconcellos, tão cedo já graduado em engenharia.  E antes dele, com 24 anos de idade, graduado  em 1.902  na mais antiga escola superior de nosso estado, a famosa Escola de Farmácia de Ouro Preto, e já pai de José Matheus de Vasconcellos, com dois meses de idade, vem a falecer-lhe o filho primogênito João Damasceno de Vasconcellos. Vê-se que ambos se valem do sobrenome Vasconcellos, herdado de Dona Lucinda e de seu pai, tendo sido ambos os irmãos vitimados pelo “mal de siècle”, que varreu jovens e populações inteiras da face da terra,  como  tributo  à insidiosa moléstia da tuberculose.
      Assim, vê-se que ainda fazendo o ministério religioso em Tiradentes tinha todos os seus filhos – inclusive a Vó Chiquinha – portadores de diploma superior, embora a parca maligna houvesse ceifado dois deles.
O menino José Matheus
      É quando chega a vez do neto José Matheus,  que carregava em casa o apelido de Juquita e seria no futuro o meu saudoso pai. Para quem morava em Tiradentes, foi fácil internar o neto com 11 anos de idade no Colégio Santo Antônio, de São João del Rei.
      No ano seguinte, transferiu-o para a famosa Academia de Comércio de Juiz de Fora . E daí, mais um ano passado, fez que o acompanhasse para o Colégio Viçosense, que se localizava bem ao lado de sua nova paróquia, a de São Geraldo, com que o agraciara a diocese de Mariana.
      Mudavam-se os circuitos viageiros do aluno, mas a garantia das despesas com o colégio, livros e todos os etceteras educacionais eram sempre cumpridos pelo “Padrinho”, como carinhosamente o chamava. Antes, a tropa passava pelo Prata, onde arranchava em algum pouso protegido, indo no dia seguinte para Rio Piracicaba, onde tomavam rancho num povoado chamado Ponte do Saraiva e só via o trem em Santa Bárbara. Mas o jovem Juquita com 11 ou 12 anos não dormia no rancho grande, que no Saraiva, pertencia ao Sô Mendes. O dono da casa sempre fazia dele um reservado, dizendo-lhe que não dormiria junto dos tropeiros. ”Você vai dormir junto da minha família e pode ir direto para a cozinha, que as panelas estão cheias de comida...”.
      Já em Viçosa, ele tomava o trem de ferro da “Leopoldina Railway”, passava por Ponte Nova e descia no final da linha, em Dom Silvério, onde pegava   o ônibus do Dídimo Teixeira para  chegar ao seu São Domingos do Prata.
      Terminado o curso pré-médico, que correspondia ao atual segundo grau, vai o José Matheus prestar exame vestibular para a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte acompanhado de mais oito colegas de sua escola. Mas dos nove candidatos somente dois logram ver-se aprovados: foi exatamente o José Matheus e Antônio Viçoso Cotta, que viria algum tempo na frente a ser eleito Prefeito de Dom Silvério.
      Aí é outra vida. Cuidar de pensão, conseguir lavadeira, comprar livros caros que o curso de medicina exigia -  é um período de lastro e arrasto... Tenho todas as fotografias das turmas de  primeiro e segundo graus, que meu pai frequentou, com a numeração e a denominação de todos e de cada qual.

      Foi no final do segundo ano que lhe chega carta do Padrinho vivendo ainda no Rio de Janeiro, sob o peso de sua avançada idade. E fala ao neto sobre o peso da idade no rendimento do trabalho.  A idade sobe e as espórtulas vão ficando fracas. Pensava, por isso, que o melhor a fazer seria que ele mudasse para o Rio de Janeiro, onde o padre tinha vários conhecidos na Faculdade de Medicina com alguns dos quais já havia abordado a eventual possibilidade de sua transferência. Não acharam que houvesse dificuldade e se a tanto se somasse a possibilidade de ele vir a morar em companhia do padrinho na casa paroquial seria um grande alívio para suas finanças exauridas

O jovem José Matheus
         É para lá que vai o jovem José Matheus, numa viagem nova e muito longa, conhecer um novo mundo e uma nova escola, que reunia os maiores luminares da medicina do país. E ao terminar o curso de medicina, quando meu pai toma preparativos para assumir responsabilidades fora do Rio, sente que o padrinho deseja recolher-se em uma casa de repouso própria para a terceira idade eclesiástica. Ele já havia ultrapassado os 81 anos de idade.  É para lá que vai, estipendiado pelo neto, que o visita sempre, até poucos anos depois fechar definitivamente os olhos para a eternidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

OS SINOS DA MATRIZ - Francisco Sá

PARTE I
O DIA EM QUE FOI DECLARADA A GUERRA 
 SANTANA DO ALFIÉ x DIONÍSIO

São fatos ocorridos por volta dos anos de 1959...60  e pouco mais...
O causo relatado aconteceu na época em que o padre dionisiano havia feito algumas pesquisas e avaliações técnicas que definiram pela demolição de nossa antiga matriz. Mais uma reforma não valeria a pena; era a hora de construir uma nova matriz. E assim se fez. Derrubaram a antiga matriz, e, no local foi iniciada a construção da nossa atual Igreja, muito mais moderna e principalmente resistente ao tempo, porque a anterior estava infestada por cupins em suas estruturas de madeiras.

Era um período de tempo em que o distrito de Santana do Alfié, não contava com um padre fixo  para as missas dominicais, casamentos, batizados, etc. O bispo de Mariana, havia determinado que o padre de Dionísio, José Índio do Brasil ficasse incumbido de cumprir estas missões. E assim, mensalmente a missa e os demais sacramentos eram ofertados à todos os valentes fieis habitantes de Santana do Alfié pelo pároco de Dionísio.


Para superar as dificuldades das estradas de chão daquele tempo, o nosso Padre contava com um Jeep Willys, pertencente à Paroquia de Dionísio, e nele eram feitas as viagens ao Alfié. O nosso Padre que também era muito sociável sempre levava algumas pessoas para lhe fazer companhia e animar a viagem, sendo que o Sr. Alvim Victorino e o Sr. José Irra eram dos mais frequentes pois conheciam praticamente todos os habitantes de Santana do Alfié. José Irra, que tinha a alcunha de Mané Gato era filho daquela terra (Alfié) e Alvim Victorino era casado com uma filha do Alfié que se tornou uma pessoa destacadíssima em Dionísio, a Professora Carlota de Vasconcelos, a nossa querida D. Lotinha.

Francisco Sá

Como eu estudava em Mariana e sabia ajudar na celebração da missa, de vez em quando era convidado pelo Pe. José Índio para ir também.

Em uma destas santas viagens, lá estava eu, juntamente com o Mané Gato, o Sr. Alvim e lógico, o protagonista principal, o Padre José Índio, para cumprir com a programação de uma missa e também alguns batizados no glorioso Distrito de Santana do Alfié.

Cumpridos os compromissos oficiais chegava a hora dos congraçamentos, que eram certamente as melhores atividades das inesquecíveis viagens a aquele tão querido distrito pratiano. E vamos às comemorações (ou bebemorações?)
Alvim Victorino Dias

Pe José Índio do Brasil
Como de costume, o Padre e a comitiva eram convidados para as ceias dos batizados e ou casamentos e foi durante uma destas comemorações, que o Mané Gato, muito alegre e brincalhão, já meio sem controle pelo resultado das muitas “branquinhas” deliciosamente degustadas, comentou com os meus parentes (da família Sá), que os Dionisianos estavam construindo uma nova igreja, e que o Nonô de Sá (que também foi nascido no Alfié), estava já arrumando um caminhão para buscar o antiquíssimo sino da Igreja Matriz do Alfié para a nova Igreja Matriz de Dionísio.

Aqui é bom destacar que o sino da Igreja Matriz do Alfié foi fabricado em 1724 e naturalmente é uma relíquia de grande valor histórico para todas pessoas vinculadas a aquela terra.

José Irra
Zé Irra se apresentava entusiasmadíssimo com a hipótese de levar tão preciosa peça para ser colocada na nossa nova Igreja, justificando com os argumentos que os nossos sinos eram pequenos e um deles estava com uma pequena trinca!

Certamente que as “branquinhas” fizeram com o nosso Zé Irra esquecesse o valor daqueles sinos para o povo do Alfié, em especial para os fiéis que nasceram ao som daqueles sinos, que também soaram nos funerais de seus ancestrais e de seus amigos, sinos que testemunham e participam da vida de todos habitantes do Alfié a mais de duzentos anos. Os sinos que marcavam as horas das missas, que informavam aos moradores as horas do dia. Nem de brincadeira esta blasfêmia deveria ser pronunciada.

Mas, ali, em meio a tantos motivos de comemorações, salgados, bebidas e etc., ninguém ligou muito para o assunto, e sempre apoiado pelo sr. Alvim e também pelo Padre, a conversa correu alegremente na maior cordialidade, sem maiores consequências.

Empanturrados e satisfeitos, tomamos o caminho de volta com incessante saculejo do Jeep do padre.

Sempre chegávamos muito tarde da noite nestes domingos especiais que vivíamos estes eventos religiosos e festivos em Santana do Alfié. Voltávamos todos muito satisfeitos com as rezas e em especial as confraternizações farturosas e fraternais.

Mais uma missão cumprida e nada mais justo que uma boa dormida dando um tempo para normalizar o teor alcoólico.

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Passados alguns dias, chega a notícia lá em casa: o pessoal do Alfié, convocados pelos Sr. Santos e incluindo meus parentes, estavam em pé de guerra, com todos os Dionisianos, e era bom ninguém ir a Alfié, especialmente o meu pai Nonô de Sá. Alguns haviam levado as brincadeiras do Zé Irra a sério...

Nonô de Sá
Os valentes fieis do Alfié mandaram informar que os sinos centenários jamais sairiam de lá, por nenhum motivo, por dinheiro algum, e ái daquele que se atrever ir retirar os sinos de lá. Que para eles era questão de honra, de vida ou morte, e etc., etc., etc.

O recado era claro e ameaçador: “Coitado daquele que aparecesse por lá... “

O único Dionisiano que ainda poderia ir ao Alfié era o padre para celebrar as missas, batizados e casamentos, mas, que ele fosse sozinho. Estava declarada a guerra aos Dionisianos!


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Meu pai adorou a brincadeira e sempre que tinha um portador mandava o recado para o pessoal do Alfié: “Assim que arrumar uma condução vou buscar os sinos da Matriz para Dionísio”.

Foram necessários meses para que a brincadeira fosse entendida como tal, para que o estado de beligerância fosse desarticulado e a paz voltasse a reinar entre os bons amigos e parentes do Alfié e do Dionísio.

É óbvio que algumas coisas foram complementares ao causo, uns enfeites e exageros, porque com o tempo isto virou piada, mas que houve mesmo certa PENDENGA entre ALFIE X DIONISIO naquela época, houve sim.  Os mais velhos sabem que houve...

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PARTE II - A COMPRA DOS SINOS DA IGREJA MATRIZ DE DIONÍSIO

Em Dionísio, havia um enfermeiro de nome Pimpão, que trabalhava nas matas do Mumbaça, combatendo a febre malária. Ele era funcionário da Belgo Mineira e também era da família Sá. Era uma espécie de “pombo correio”, pois Ia sempre visitar os parentes dele lá no Alfié, e trazia as novas notícias sobre as polêmicas geradas pela ideia, digamos, da transferência do sino para Dionísio.

Em uma destas viagens, que fazia a cavalo e até mesmo a pé, ele foi porta voz da Vovó Olinta, mãe de meu pai, que estava injuriada com a notícia do "roubo do sino" e prometia fazer e acontecer com meu pai se ele fosse lá em Alfié para buscar o famoso sino.

Com medo de uma “praga de mãe”, meu pai tratou logo de ir visita-la e acalma-la e neste contexto é que ele prometeu para sua mãe que iria adquirir um novo sino para a nossa matriz e encerrar este assunto de levar o sino do Alfié para Dionísio. E assim foi feita a promessa de meu pai para minha Vó Olinta!

Meu pai era muito festeiro, muito conhecido por todos em Dionísio, pois sempre estava frente das festas de São Sebastião (dentre outras) e usando esta experiência de festeiro, convoca a comunidade dionisiana para fazer doações para a compra dos novos sinos.

O assunto da vez na Paróquia do Pe. Zé Índio eram os novos sinos para a nova matriz. Conversa vai, conversa vem, e decidiu-se que as medidas dos nossos sinos deveriam ser, iguais ou maiores que os sinos do Alfié. Deveríamos ter sinos melhores que os deles! Era um desafio!

Nonô de Sá, para cumprir a promessa feita para a Vó Olinta, fez uma viagem a São Paulo para realizar a compra dos sinos, e se depara com um grande problema: o preço era muito acima do que foi previsto e arrecadado. Como voltar a Dionísio sem ter comprado o sino? Como encarar a Mamãe Olinta? Quanta decepção e problemas se voltar sem os sinos comprados...

Pensou, pensou e em virtude da promessa feita à minha Vó, decidiu que, pagaria a grande diferença que faltava para completar o valor dos sinos. Só assim o negócio ficaria fechado, pois o pessoal da fundição não abria mão de receber o valor adiantado.

Feito o pagamento, prometeram também entregar rapidamente os novos sinos para Dionísio.
Com pouco tempo, chegou o telegrama, avisando que o sino estava pronto.

Geraldo Coura
 Meu pai, então solicitou do Sr. Geraldo Coura, um caminhão para buscar o tão almejado sino e assim partiram para São Paulo: Geraldo Coura, Nonô de Sá, Zé Marques de Oliveira, mais o motorista. Naturalmente que alguém ia revezando na carroceira, pois, naquele tempo não era proibido.


Geraldo Coura foi um respeitável empresário, no transporte de madeira, da mata do Mumbaça até João Monlevade e também foi vereador da cidade.

Foi uma festa, a chegada do sino! Foguetes esperavam a caravana e os dionisianos curiosos queriam ver de pertos os novos sinos da Matriz que cumpririam a partir de então tão importantes papeis nas comunidades do interioranas como de Dionísio.




Mas, em meio a tanta empolgação, a preocupação maior de meu pai, era mandar avisar imediatamente ao pessoal do Alfié, que os nossos sinos chegaram, que eram muito melhores que os deles. O som era muito melhor!

Inicialmente os sinos ficaram instalados provisoriamente em uma grande trave de madeira,  pois não havia como subir com eles até a torre. Neste lugar eles ficaram por muito tempo, até que um dia meu pai então solicitou de seu genro Dicão a utilização de equipamentos da Belgo Mineira para colocar os sinos na torre da Igreja. Dicão prontificou-se, e com um grande tifor da C.S.B.M., finalmente colocou os sinos lá no alto, onde se encontram até hoje.


DESTAQUE.
É importante destacar que na ocasião da fundição dos sinos, o Padre José Índio para homenagear o Sr. Nonô de Sá, que muito havia contribuído para a aquisição dos sinos, solicitou que fossem gravados os nomes de Norberto de Sá e José Marques de Oliveira, designados como padrinhos dos novos sinos.

Nonô de Sá
José Marques
 

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PARTE III – CONFERINDO A PENDENGA

O caso não pode terminar ,sem vc. colocar o que vivenciei ,lá no ALFIE. Vamos lá...
Fui verificar  in loco  os sinos causadores da PENDENGA.

Achei tudo fechado...a vila toda dormindo... Eram 9 horas...Que decepção!
Eis que aparece uma alma  viva, com uma conversa muito fria, sem nenhum interesse!

Falei que era da família Sá e que estava a procura de algum parente, no que fui respondido: Iiiiiiiiiiii Aquele pessoal não existe mais....Sumiu todo mundo.
Tá bom , respondi.

Insisti em fotografar a Igreja por fora, pois o cadeado estava trancado...
Neste interim ,apareceu uma pessoa, e perguntei como poderia ver a igreja por dentro.
Ele me indicou com o dedo , onde morava a zeladora da igreja.

Fui até a casa da zeladora, onde fui atendido e expliquei o motivo de minha visita ao Alfié.
Ela se dispôs a ir até a igreja comigo e chamou o Irmão.

Eu lhe disse que meus pais eram do Alfié.. e citei o nome de minha vovó Olinta.
Mas o Sr. não é filho do Nonô de Sá, é?
Sim, respondi, sou filho de Nonô de Sá.
Pois então nós somos primos, disse ele. 
Aí, me senti em casa... Senti que a minha missão seria cumprida.

Perguntei se eles sabiam da pendenga dos sinos.
Claro que sabemos, responderam.
Eu mesmo fiquei de sobreaviso naquela época, vigiando os sinos.
Então ele me contou o seguinte:
Ha mais ou menos 3 anos chegou um congado de barão de cocais para abrilhantar a nossa festa. O chefe da delegação foi visitar a igreja e foi levado para ver o sino.
Sabe o que ele disse? Seus sinos são falsificados pois os legítimos estão em Dionísio.
No que ele respondeu: Coitado.. Ninguém nunca teve coragem de vir aqui buscar estes sinos! E se viesse, não levaria mesmo!

Os zeladores da igreja são irmãos e se chamam Maria Isabel, atualmente com 75 anos e Jose Geraldo com 80 anos. Constatamos então que, o pessoal de Barão de Cocais sabia da história do sequestro do sino.


Assim que cheguei de frente dos sinos.. Eu disse para o de Geraldo:
O nosso sino e mais bonito. Acho melhor a gente trocar, vocês ficarão em vantagem...
Não vai dar não.. Respondeu ele sorrindo.


  




 

E assim chegamos à conclusão que os famosos sinos do Alfié estarão lá para sempre!

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ABUNDA PITA


Em uma das viagens ao Alfié gravei em minha memória, que por enquanto é muito boa, o seguinte diálogo entre o SR. Alvim e o Padre José Índio. 

O silêncio reinava enquanto o Jeep nos conduzia com os solavancos sempre, quando de repente o Padre que estava no volante, olhando para o Morro, disse: É impressionante como tem pés de pita aqui na região! 

Imediatamente foi aparteado pelo Sr. Alvim: é.... aqui abunda pita...

Foi uma risada geral... imaginem as alturas das risadas, onde estavam Zé Irra, Padre Zé Índio e  Sr. Alvim... Só está figura que vos relata o fato é que não entendeu nada na hora.

Somente depois é que me dei por entendido.


PS:  A pita era muito usada pelos barbeiros de Dionísio para afiar as navalhas. Recordando em especial o Mudo e o Zé Condessa que cortaram tantos cabelos dos dionisianos.

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