segunda-feira, 17 de junho de 2019

SANTANA DO ALFIÉ - Paulino Cícero de Vasconcellos


     O Alfié é uma comunidade humana pequena, mas senhora antes e agora de uma vasta área territorial. E debaixo de seus telheiros se passaram muitas histórias. De suas terras nasceram as cidades de Dionísio, São José do Goiabal, Marliéria, Jaguaraçu e mesmo Timóteo, que experimentou pequeno passeio geográfico na jurisdição de Coronel Fabriciano. No princípio dos tempos, havia um conflito que não tinha inspirações políticas. Era a origem do nome a causa das discordâncias. Uns falavam que Alfié era forma sincopada de Alto e Frio. Alto e frio é, gerou Alfié, que chegou a Alfié. Muita montanha, fraldas do Espinhaço, tudo favorecendo a tese de que não abria mão a porção etílica da vila.       Outra versão, com mais densidade histórica, atribuía à vila no século passado o abrigo de uma balança destinada a cobrança do quinto do ouro. Assim, balança é fiel e o bateeiro do Rio Piracicaba dizia: “vamos ao fiel pesar os quintos”. É fácil aceitar que “ao fiel” tenha sido a matriz etimológica de Alfié. Do Alfié que celebramos. Isto para não falar no guardião fiel a seu dever no aquartelamento de Guy Thomas de Marlière, quando no século XIX, vindo da Europa, em fuga de Junot e das forças napoleônicas, o militar francês na expedição de Dom João VI, logo se tornou o Governador dos índios selvagens, botocudos e antropófagos do Rio Doce, estabelecendo ali um dos seus quartéis. Conta a lenda que diante de um ataque avassalador dos indígenas todos os membros do corpo militar caíram no mato – que ninguém é de ferro. Todos, menos um, o impoluto e fiel defensor e vigia da cidadela.


      Há trezentos anos, o desenho urbano da terra é o mesmo. Velhas casas coloniais, que se alinhavam a partir da Rua dos Moraes. Nada de luxo, que luxo lá não havia. Seguia-se um trato de via destinado ao comércio, culminando num pequeno largo, de onde saía a rua que passava pela porta da igreja e retornava á Rua dos Moraes. Calçamento com destinação imprecisa. Não era paralelepípedo, poliédrico não era também. Eram pequenos matacões de rocha ou algum bem mineral, que escassamente se ajustavam, mais servindo para evitar barro e lama onde as pessoas e animais passavam.

 

      
A pequena igreja de Santana é seu monumento mais significativo. Preserva com fidelidade o padrão colonial das igrejas mineiras e me lembra bem a igreja de Nossa Senhora da Praia do Ó, em Sabará.  À esquerda da nave existe uma porta que se abre para uma parte do adro e logo ali, bem pertinho uma enorme pedra de forma lamelar. Ela cobre o túmulo da minha avó, da Maria Constança de Moraes, mãe idolatrada de meu pai. Sempre que passava pela porta da igrejinha, debruçava os olhos sobre a improvisada lousa, fazia silenciosa prece para minha avó, perguntando-me em seguida: quantas missas terá celebrado no altar desta igreja o meu bisavô, Monsenhor Antônio Fernandes Lellis.

    

  Para ele Alfié era apenas a história de seus começos. Porque nascido em Santa Bárbara em 1.847, ordenado sacerdote no Caraça em 1.876, foi ao Alfié que o guiaram as ordens episcopais e seu senso de obediência. E logo entre os bons conselhos que distribuiu  estava a boa arte do matrimônio, que ele ensinava pacientemente, dia após dia, à já prometida noiva Lucinda de Assis Vasconcelos, bela jovem da Fazenda dos Assis.  E a família punha gosto naquela manifestação de dedicação paroquial, que se traduzia numa presença quase constante na fazenda. Eis que  Lucinda começa a ganhar novos ares, a engordar, a vestir-se com roupas mais  generosamente largas, a comprimir o abdômen, de tal sorte que, faltando perto de quinze dias para o nascimento do fruto proibido, ela se mudou para o moinho da propriedade, onde viveu escondida dos olhos dos pais e do mundo e onde nasceu o filho João Damasceno, meu avô, que João do Moinho ficou sendo, no trato futuro até com seus colegas de escola.

      Mas o Monsenhor não era homem do escondidinho. Queria as coisas às claras. Não foi por outra razão que ousou abandonar a batina, com grave risco de excomunhão, estabelecendo casa na rua, onde tiveram ele e Lucinda mais dois filhos: José Bebiano e Francisca Prisca. E ele trabalhava muito. .Além de atender outras paróquias nos tempos de sacerdote, foi duas vezes eleito vereador à Câmara de São Domingos do Prata. Trabalhou como tropeiro e em outros negócios que lhe permitissem alimentar a família e educar os filhos.


      Mas o homem põe e Deus dispõe. E muito do que ocorre na vida de cada qual é fruto de acontecências. Assim foi com o Monsenhor, que, certo dia, governava uma tropa de carga pelas trilhas da região, quando depara, inopinadamente, com um grupo de cavalarianos, também na trilha, sob as frondes de um capão de mato.


      Era o Arcebispo de Mariana, Dom Silvério Gomes Pimenta, em visita pastoral por sua jurisdição eclesiástica. “- que é isso, Lellis, você com barro até no peito. Você não precisa disso. Foi dos melhores alunos da turma e respeitado por sua firmeza e liderança”. Haviam sido amigos e colegas nos bancos do Seminário. E lhe sugeriu ir à Sé, procurá-lo em Mariana, que o enviaria a Roma para levantar seus interditos de excomunhão e obter a purificação de sua vida. Quando voltasse – disse-lhe na Sé – teria paróquias distantes dos sítios dos seus romances para evitar tentações futuras.


      Esta foi a sugestão e assim se procedeu. Em 1.903 vai a Roma, de onde tenho suas fotos de sobrepeliz tiradas na “Via Principe Amedeo”, número três. 

      Sua primeira designação foi para a paróquia de São José del Rey – hoje, Tiradentes em homenagem ao filho da terra e protomártir da independência. Quarenta anos atrás, fiz uma visita à terra e vejo que deixou na memória de algumas senhoras a imagem de Padre bravo e gritalhão. Lá sepultou seu segundo filho, Bebiano, que morreu solteiro aos 27 anos de idade. O meu avô, João Damasceno, já havia falecido aos 24 anos, de tuberculose, quando meu pai cumpria seu segundo mês de vida.  Chegando aos tempos de ginásio, meu pai é por ele internado no Colégio São Francisco da vizinha São João Del Rey.


      Depois o leva para a Academia de Comércio de Juiz de Fora. E, finalmente, quando se torna vigário de São Geraldo, na Mata Mineira, o avô e padrinho o interna no Colégio Viçosense, onde termina o ginásio e faz o curso pré-médico.


      O que vale lembrar é que seu auxílio foi permanente e sem reservas. Quando meu pai, às suas expensas, cursava o segundo ano de medicina em Belo Horizonte, recebe do Monsenhor – agora levado para a igreja do Carmo no Rio de Janeiro - uma carta em que falava no peso dos anos e nas espórtulas eclesiais que estavam minguando. Em suma, chega a sugerir-lhe uma mudança para o Rio, residindo na Casa Paroquial e lhe aliviando despesas de que não havia como fugir. Assim se explica a ida do jovem universitário José Matheus para a Faculdade Nacional de Medicina, na Praia Vermelha. E o mesmo fez com José de Assis Santiago, primogênito da filha Francisca Prisca, que foi aquinhoada com o “Santiago” no ato do esponsalício e que se tornou brilhante advogado e jurisconsulto em Minas.


      O Monsenhor nunca mais tornou ao Alfié. A terra continuava na mesmice de sempre, fazendo uma agricultura rudimentar e de subsistência, cortando e vendendo lenha de suas matas. De novidade o que apareceu na terra, no espaço de quase cem anos, foram três iniciativas rurais que se cobriram de sucesso. A primeira, no início do século passado, foi a implantação da Fazenda do Bicudo, onde o Dr. Raul de Caux implantou os Vinhedos do Alfié, chegando, em 1.916, a comparecer nos relatórios da Secretaria da Fazenda como o maior produtor de vinho de nosso estado, com direito a fotografia, que especulava detalhes das “fermes” francesas para cá transplantadas.

      A segunda, bem mais recente, foi a implantação da fábrica de cachaça Brasília, pelo Sr. João Cassimiro. Pinga – diga-se desde logo – digna dos arrepios da região, e que hoje se tornou privilégio dos etilistas do Vale do Aço. A terceira, mais ampla e bem mais florescente, foi a virada florestal, que teve como carro chefe a Florestas Rio Doce, cobrindo nossa geografia de eucaliptos e pinus e oportunidades de trabalho.


      Quando me ocorre lembrar da primeira visita que fiz a Alfié em companhia de meu pai um equipamento lá me impressionou profundamente. Era o sistema de abastecimento de água, que corria ao longo da Rua dos Moraes, pela banda dos quintais. Suportadas por uma centena de ganchos fincados ao solo, corria uma canalização feita de grossos bambus cortados ao meio, e aquilo ia correndo rua abaixo, de onde cada morador fazia a derivação de seu abastecimento, também, de bambu mais fino.


      Quando assumi a Prefeitura, fiquei com grave responsabilidade política. Eu tinha de reverter e precisava de qualquer forma de reverter o quadro político do distrito. É que lá, como em Ilhéus do Prata, dois de nossos seis distritos, eu sofrera uma acachapante derrota eleitoral. Meu pai certo dia, abatido com aquele resultado, lembrou-me de que lá apenas não nascera, mas dos dois meses de idade e orfandade até sua graduação aos 24 anos, lá fora sua terra, onde tivera muitos colegas na escola de seu avô e mestre Cristiano Moraes. Chegou a indagar-me se não seria mais prudente buscar a emancipação do distrito ou mesmo anexa-lo a outro município. Eu, então, lhe prometi que faria a reversão política da terra. Disse-lhe que as coisas iam mudar. Afinal, é do Alfié que vieram todos os outros municípios de nossa Comarca.


      A liderança política era sempre expressa pelo vereador Oswaldo Gomes da Silva, farmacêutico, parteiro, enfermeiro que gostava de fazer e sabia fazer política. Acho curioso lembrar que sua farmácia só trabalhava na manipulação. Não tinha medicamentos em estoque. E havia registrado um produto – o famoso Tempero Quitandinha – também manipulado na base não sei de que, e era um sucesso. Condividiam-lhe a liderança algumas figurar nobres da terra como José Cupertino, Guilherme e Lilica, Pedro e Dona Regina – todos da família Pimentel e, mais, Santos Vasconcelos com seu sogro José Gomes, o professor e músico Manuel Onésimo, Otávio Martins, Geraldo Coura, Pedro e José Domingues, Zé de Rosa e outros… Quando partiam numa direção era para lá que todos caminhavam.

Paulino Cícero com lideranças no Alfié em 1951

       Como se prestasse contas ou homenagens à terra das minhas origens, foi lá que inaugurei duas fases novas de minha vida: nas ruas do Alfié, bem ao lado da Igreja de Santana, minha primeira ação como advogado recém-formado. Também no distrito, no povoado de Bomtempo, a inauguração da primeira escola, como prefeito municipal.


      Como advogado fui chamado pelo Raimundo Papo para dirimir uma questão de lindes com o vizinho de lote. Onde passava a divisa dos dois lotes? – Esta era a questão. Levei comigo no jipe o Inhô Gomes, amigo e experimentado agrimensor.  A questão se cingia, realmente, à gigantesca dimensão de um bambuzal, que crescera para todos os lados e impedia definir divisas certas. Conversei muito com os litigantes, enquanto Inhô colocou o seu teodolito em operação e saiu com uma machadinha fazendo talhos nos bambus. Terminou dizendo: Aí estão suas divisas. Os desavindos se confraternizam e completa Raimundo Papo “eu chamei, eu tenho que pagar. Você vai receber um queijo, um cantante e um Santo Antônio de madeira, porque me disseram que Dona Célia gosta muito destas velharias de casa.”


      Passaram-se 55 anos até hoje. Não comi o queijo do Raimundo Papo, nem sacrifiquei qualquer cantante de seu obséquio e Santo Antônio, bem Santo Antônio continua no céu. Lá em casa ele não chegou. Mas triste termina a história. Poucos anos se passaram e em nova questão divisória, na localidade de Trindade, ele morre assassinado pelo vizinho, na presença do oficial de justiça.


      A escola que inaugurei era simples. Feita de pau-a-pique, toda pintadinha de branco e com bancos bem sumários. Comprei, antes de sair para a inauguração, 40 cadernos, 40 lápis escolares e um quilo de bala bem doce. O velho caminhão Ford, com 12 anos uso, especialista em transporte de lixo grosso e trazer os defuntos da roça, eu já o mandara à sede da vila para levar os seis membros da banda de música comandada por Manuel Onésimo. Entreguei o material didático à professora e fiquei sorvendo a alegria do povo, rodeado por todas as figuras gradas da terra. Até hoje não entendo porque a banda ao invés de executar o hino nacional, resolveu atacar o hino à bandeira. “Salve lindo pendão da esperança...” Alturas tantas, o improvisado coral não sabia o texto da música e começou a cantar o estribilho repetindo-o com a solidariedade da banda de música. Aí ocorre o inesperado. A professora, cantando o estribilho, sobe os três degraus, desfaz o nó da fita verde e amarelo, roda a chave, e traz lá de dentro um dos cadernos em cujo verso se inscrevia o hino à bandeira. Do alto da escada, localizada a matéria, dá o comando e todos acabamos com muitas palmas cantando a peça completa. Havia muita alegria. Houve muito discurso e declamações. Seguiu-se a carne cozida com farinha do vereador Oswaldo servida a todos com generosas doses de Brasília, em cuja fila não faltaram as crianças estimuladas pelas mães. Era o começo da virada.


      Sempre gostei muito do Alfié e de sua gente. Cansado, lá era meu refúgio. Quando passou a eleição de l.962, que foi a primeira virada e eu me elegera deputado estadual, retornei à Prefeitura após o pleito e ela estava em frangalhos financeiros. Eu estava eleito, mas eram cobradores demais e o Alfié era meu refúgio. Lá para o Bar do Zé de Rosa, velho companheiro, relaxava com uma boa linguiça assada e a generosa Brasília. Ou jogava uma partida de sinuca. Ou era a casa do Zé Domingues, às vezes com direito à banda de música, enquanto éramos regalados com porções generosas de jiló à Alfié.


      Fizemos muitas coisas boas em Alfié. Melhoramos suas estradas, até de as de cavaleiro. Integramos o distrito na rede da Cemig e instituímos na época o curso ginasial. Como esquecer, por exemplo, que foi num baile de sete de setembro, com direito ao Lumumba, dos Cantores de Ébano, que lancei a candidatura de Antônio Guido Rolla a Prefeito do Prata, onde realizou a mais ampla, geral e irrestrita ação administrativa, que minha geração testemunhou? E o Padre José Índio, meu primo querido, que chegou à paróquia e se incorporou à nossa roda, condividiu nossos copos, e de lá, como a dizer que a história se repete, de lá saiu para o mundo, casado com a Zenaide do Sr. Otávio, e, nos braços, uma linda filha nos seus primeiros anos de vida.


     Velhos e bons tempos!


Paulino Cícero de Vasconcellos
Do livro MEUS CADERNOS - De São Domingos do Prata a Brasília









sexta-feira, 12 de outubro de 2018

DR. GOMES LIMA - Edelberto A. Gomes Lima



ANTÔNIO GOMES LIMA, CONHECIDO COMO DR. GOMES LIMA, UM DOS GRANDES VULTOS DA HISTÓRIA DE SÃO DOMINGOS DO PRATA E JUNTO COM OUTROS, SÓCIO FUNDADOR DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE MINAS GERAIS.

*EDELBERTO AUGUSTO GOMES LIMA.

Antônio Gomes Lima, que ficou conhecido como Dr. Gomes Lima, nasceu em São Domingos do Prata em 16 de junho de 1869. Era filho de Modesto Gomes Domingues e Maria dos Anjos de Lima (de Jesus, de solteira).

Foi casado com Isabel da Luz que, após o matrimônio, acrescentou o nome de família do marido, passando a chamar-se Maria Isabel da Luz Gomes Lima.

Era irmão dos também pratianos Joaquim Augusto Gomes Lima, Altina Rosa de Lima, Narcisa Rosa de Lima e Virgílio Lima.

De seus sobrinhos, entre outros, cito os filhos de Joaquim Augusto Gomes Lima, quais sejam: Manoel Martins Gomes Lima, Modesto Domingues Gomes Lima e Alcina Gomes Lima, todos pratianos.
Três dos irmãos são nomes de ruas em São Domingos do Prata, incluindo o próprio Dr. Gomes Lima, como era conhecido Antônio Gomes Lima. Sendo que Virgílio Lima é nome de rua mais em João Monlevade.
Antônio Gomes Lima fez seus estudos primeiramente em Ouro Preto quando ainda capital do Estado e o curso superior nas Faculdades de Direito de São Paulo e do Rio de Janeiro e em 1892, transferiu-se para a Faculdade Livre de Direito em Ouro Preto (embrião da atual Faculdade Federal de Direito de Belo Horizonte), bacharelando-se em 1893. 
Em seu último ano na Faculdade ele (juntamente com Alfredo Guimarães e Carvalho de Brito), responsabilizou-se pela redação do periódico “Imprensa Acadêmica”, órgão da Academia de Direito de Minas.
O jornal de seu torrão natal, “A Voz do Prata”, noticiou, em edição de novembro de 1893:
“Depois de ter recebido o grau de bacharel em direito na Escola Livre deste Estado, chegou a 29 do passado a esta cidade, o Sr. Dr. Antônio Gomes Lima. Foram ao seu encontro diversos cavalheiros indo até a residência de seu respeitável pai.......”
Em 1891, ainda estudante, tornou-se, por breve período, juntamente com seu parente, Manoel Coelho de Lima, membro da Comissão de Intendência que passou a governar São Domingos do Prata até a realizações de eleições.
Logo depois de formado radicou-se novamente em São Domingos do Prata tendo o jornal “A Voz do Prata”, em sua edição do dia 15 de outubro de 1893, noticiado ter o mesmo sido nomeado Promotor Público da Comarca de São Domingos do Prata.
O referido periódico em sua edição de 31 de março de 1895 dava a notícia de seu pedido de exoneração do cargo de Promotor de Justiça. Em julho do mesmo ano, conforme publicado no jornal “O Minas Gerais”, em sua edição de 6 de julho, foi nomeado Juiz substituto da Comarca de Alfenas.
O jornal “Minas Gerais”, em sua edição de 13 de setembro de 1898, publicava a nomeação, por decreto do dia 12 de setembro do mesmo ano, para o cargo de Secretário da Polícia.
Em 1902, fruto ainda de sua competência, foi nomeado Chefe da Polícia do Estado de Minas Gerais, cargo este que passou a ser denominado de Secretário de Segurança Pública e atualmente Secretário de Defesa Social.
Posteriormente foi presidente do Banco Crédito Real de Minas Gerais que sempre teve, enquanto existiu, a sua sede em Juiz de Fora. Foi também, a partir de 1913, Presidente do Banco do Brasil no Rio de Janeiro.
De 1907 a 1908 foi Senador estadual por Minas Gerais.
O Senado Estadual era uma das Casas do poder legislativo dos estados, existentes durante a chamada República velha.
 Nessa fase da vida brasileira, a Constituição Federal permitia que os Estados, desde que não contrariassem a forma republicana e os princípios constitucionais inseridos na Carta Magna, organizassem o seu próprio sistema federativo, podendo adotar o unicameral (apenas Câmara de Deputados, hoje Assembléia Legislativa) e ou a bicameral (Câmara de Deputados e Senado Estadual). Minas Gerais adotou o sistema bicameral.


SENADORES ESTADUAIS QUE FORAM ELEITOS, JUNTAMENTE COM O PRATIANO DR. ANTÔNIO GOMES LIMA, EM 1907

Em 10 de março de 1907, foram realizadas em Minas Gerais eleições para o SENADO ESTADUAL.
São Domingos do Prata elegeu um de seus mais brilhantes filhos, o Dr. Antônio Gomes Lima, conhecido como Dr. Gomes Lima.
Foram eleitos juntamente com o Dr. Gomes Lima, os seguintes senadores estaduais:
          Dr. Chrispim Jacques Bias Fortes.
          Dr. Delfim Moreira da Costa Ribeiro.
          Dr. Antônio Gonçalves Chaves.
          Coronel Antônio Martins Ferreira da Silva.
          Dr. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.
          Dr. Camillo Augusto Maria de Britto.
          Dr. Gomes Freire de Andrade.
          Dr. Pedro da Matta Machado.
          Dr. Cornélio Vaz de Mello.
          Coronel Joaquim Baptista de Mello.
          Dr. Nuno da Cunha Mello.
          Coronel Francisco Ferreira Alves.
          Dr. Francisco Nunes Coelho.
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INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE MINAS GERAIS
Dr. Gomes Lima (Antônio Gomes Lima, segundo nome da ata, logo abaixo de João Pinheiro da Silva), foi também um dos fundadores, em 1907, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.



Fez parte da Comissão encarregada de elaborar os estatutos do Instituto, juntamente com outros componentes, entre os quais citamos alguns: Virgílio de Melo Franco, Antônio Benedito Valadares Ribeiro, Augusto de Lima, Nelson de Senna, Cel. Francisco Bressane, Prado Lopes, João Luiz Alves, Francisco Alves Junior, Olinto Meireles, Estevam Pinto, Pedro Sigaud, Major João Libano Soares, Rodolfo Jacob e o Cel. Júlio César Pinto Coelho.
Elaborado os estatutos, em 12 de julho de 1907 essa Comissão reunida elegeu a primeira Diretoria do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, sendo eleito Presidente o Dr. João Pinheiro da Silva, então Presidente (Governador) do Estado de Minas Gerais, pai do futuro Governador Israel Pinheiro.

A instalação ocorreu em 15 de agosto de 1907 em sessão solene na antiga Câmara dos Deputados, situada no prédio do Congresso Provisório, que existia na Av. Afonso Pena com Rua da Bahia.

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        No início de 1909, o Senador Dr. Gomes Lima renunciou ao cargo eletivo por ter sido nomeado Diretor do Banco Agrícola de Minas Gerais (depois Banco de Crédito Real), posto que ocupou até 1913. Posteriormente foi Presidente do Banco do Brasil com sede no Rio de Janeiro, então capital da República, onde passou a residir.
Constam de uma propaganda “da Mutua Central – Sociedade Mutua de Pecúlios” os nomes da diretoria cujos nomes transcrevo a seguir:
Presidente, Dr. Dr. José Vieira Marques, 1º secretário da Câmara dos Deputados ao Congresso Mineiro; Vice-Presidente, Dr. Antônio Gomes Lima, presidente do Banco do Brasil, Thesoureiro, Coronel José Guilherme de Almeida, industrial.
No Conselho Fiscal, entre outros, figurou os nomes de dois personagens históricos que foram Presidentes da República: Dr. Wenceslau Braz Pereira Gomes e Dr. Delfim Moreira da Costa Ribeiro.
Em 1911, graças ao seu prestígio junto ao Palácio da Liberdade conseguiu verba para construção de um Grupo Escolar em Dionísio, então Distrito de São Domingos do Prata. Essa Escola existe até os dias de hoje e, em gratidão, o povo local o homenageou dando-lhe o seu nome.
O Decreto nº 3.147, de 28/03/1911, foi assinado por Júlio Bueno Brandão, então Presidente do Estado de Minas Gerais e também por Delfim Moreira da Costa Ribeiro que, em 1918, seria Presidente do Brasil.
A grande indagação que se faz, era a razão pela qual levou a primeira escola estadual para Dionísio e não para a sede do município.
A resposta fui encontrar na notícia a seguir:
CRIAÇÃO DE GRUPO ESCOLAR ESTADUAL
EM SÃO DOMINGOS DO PRATA.
O jornal “O Imparcial”, em sua edição do dia 28 de fevereiro de 1908, noticiava:
“Devido a esforços do padre João Pio, secundado pelo Chefe do Executivo e mais membros da Câmara, parece que vai ser criado um grupo escolar nesta cidade, em vista da boa vontade que mostra o Dr. Carvalho de Brito de prestar serviços a este município.........”.

          Em minha opinião está aí a razão pela qual o Dr. Gomes Lima, em 1911, optou por levar um grupo escolar estadual, primeiramente para o distrito de Dionísio.




CRIAÇÃO DO GRUPO ESCOLAR ESTADUAL
EM SÃO DOMINGOS DO PRATA.
Para a sede do município a escola já estava prometida ao padre João Pio (posteriormente virou cônego). Como essa escola não virou realidade, em 1918, quando deputado federal, o Dr. Gomes Lima conseguiu a tão sonhada escola estadual também para a sede do município de São Domingos do Prata, escola essa que alfabetizou dezenas de gerações de pratianos e por ironia do destino, por volta de 1930, o dr. Edelberto de Lellis
Ferreira deu-lhe o nome de Grupo Escolar Cônego João Pio.
         Quando foi oficialmente inaugurada, em 1921, recebeu o nome de Grupo Escolar São Domingos do Prata.
O Decreto nº 5.065, de 13/08/1918, criando o Grupo Escolar foi assinado pelo então Presidente do Estado de Minas Gerais, Delfim Moreira da Costa Ribeiro. Três meses após, em 15.11.1918, ele se tornaria Presidente do Brasil.
O Dr. Gomes Lima conseguiu a verba e a autorização, mas o Grupo Escolar foi construído no mandato, como Agente do Executivo, de Egydio Lima (Capitão Dico).

VERBA PARA CONSTRUÇÃO DE UM HOSPITAL.
O jornal “O Prateano”, em sua edição de 10 de novembro de 1912, noticiava: “O Dr. Gomes Lima, filho que não se esquece desta terra que o faz vibrar, obteve dos Congressos deste Estado e da União, valioso auxílio para a fundação nesta cidade, de um hospital ou casa de caridade, onde os desvalidos encontrem lenitivo aos seus sofrimentos.”


PRIMEIRO PRATIANO SENADOR E DEPUTADO FEDERAL.
Ele foi também Deputado Federal por duas legislaturas, de 1915 a 1921. Foi, portanto, o primeiro pratiano a ser Senador e Deputado Federal.
O Centro de Documentação da Câmara de Deputados veicula ter sido ele Deputado Federal por duas legislaturas seguidas.
A 1ª de 1915 a 1918, tendo tomado posse em 03 de maio de 1915. A 2ª, de 1918 a 1821, sendo empossado em 02 de maio de 1918.
O jornal “A Voz do Prata”, edição de 10 de maio de 1918, noticiava a seguinte votação obtida em sua reeleição (o voto era distrital):
         Dr. Antônio Gomes Lima: 2.581 votos.
         Dr. Américo Ferreira Lopes: 1.252 votos.
         Dr. José Bonifácio de Andrade Silva: 901 votos.
         Ph. Bernardino de Senna Figueiredo: 455 votos.

Para Presidente da República, o seu antigo colega no Senado Mineiro, Delfim Moreira da Costa Ribeiro, havia obtido 1.390 votos, enquanto o Comendador Antônio Martins F. Silva: 368 votos. Delfim Moreira nessa eleição foi eleito Presidente do Brasil.
Já como Deputado Federal, além do Grupo Escolar acima noticiado, trouxe outros benefícios para o seu torrão natal. Entre outros citamos:
O jornal “A Voz do Prata”, em sua edição do dia 19 de novembro de 1916, noticiava que em breve seria inaugurado o serviço telegráfico na cidade.
Finalizava a notícia declarando que “de há muito o nosso distinto conterrâneo, exmo. Sr. Dr. Gomes Lima, representante deste Distrito na Câmara Federal, vem empenhando seus esforços perante os poderes públicos, a fim de conseguir para esta terra melhoramentos de que muito necessita para seu completo evoluir, figurando em primeiro plano o serviço telegráfico...”
Obtido este desiderato, é de se presumir que tenhamos de registrar, brevemente, a consecução de outros melhoramentos de suma importância para o município, como sejam: estrada de ferro, cadeia, casa do Fórum, vias de comunicação e outros, sendo alguns desses serviços de imprescindível necessidade (.......).
Obtido este desiderato, é de se presumir que tenhamos de registrar, brevemente, a consecução de outros melhoramentos de suma importância para o município, como sejam: estrada de ferro, cadeia, casa do Fórum, vias de comunicação e outros, sendo alguns desses serviços de imprescindível necessidade.......”.
Em 1931, o jornal “A Voz do Prata”, publicava:
         “Pelo nosso conterrâneo Dr. Antônio Gomes Lima, a quem esta terra muito deve, foi enviada a importância de 200$000 para os pobres do Hospital Nossa Senhora das Dores desta cidade (...)”
Em 1944, ele foi apontado por Abelardo de Morais como um dos grandes benfeitores de São Domingos do Prata.
A rua em frente ao prédio do Fórum leva o seu nome.

NOTA: Histórico sobre a criação do Grupo Escolar Cônego João Pio, da data de sua inauguração e de seus primeiros anos de existência pode ser encontrado em meu livro “São Domingos do Prata: Fragmentos de sua história”.
A seguir a capa da 1ª edição do livro, com a foto do Dr. Gomes Lima.


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O AUTOR SENDO APRESENTADO POR FÁBIO AMERICANO,
ASSOCIADO EFETIVO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO
DE MG E NATURAL DE DIONÍSIO.
DR. EDELBERTO AUGUSTO GOMES LIMA.
"A causa de minha aproximação com o Dr. Edelberto Augusto Gomes Lima é uma vocação que temos em comum: estudos e pesquisas das histórias de nossa região.
Edelberto é sem dúvida um dos mais destacados historiadores de nossa região e em especial de São Domingos do Prata. É um privilégio para os pratianos de todos os tempos terem alguém como ele para organizar e disponibilizar as memórias dos eventos da região, da cidade e das famílias.
Os estudos e pesquisas apresentados por Edelberto são amplos, detalhados, criteriosos, cuidadosos e reúnem e organizam as evidências documentais dos fatos históricos de uma forma incontestável.
As histórias apresentadas por Edelberto estão isentas de paixões ideológicas de qualquer índole, ele se prende às notícias e aos fatos valorizando as evidências documentais e não se preocupando em momento algum em emitir juízos a respeito dos mesmos.
Tenho aprendido muito com ele e uma das coisas que me ensinou é que também sou um Pratiano. Um dia ele me perguntou em que ano eu nasci, e em seguida emendou; veja se na sua certidão você não está registrado como nascido em São Domingos do Prata. Neste momento ele uniu minha condição de Dionisiano à condição de Pratiano.
Dionísio tem como terra mãe São Domingos do Prata, Dionisianos e Pratianos sempre existiram juntos e misturados. São as mesmas famílias, as histórias são integradas, interligadas; não há como separar.
Minha gratidão ao Dr. Edelberto pelo precioso material que nos tem legado, pelo que me ensina, pelo que colabora comigo e recentemente por nossa amizade".
Fábio Americano – BH – agosto 2016.


*O artigo acima foi reproduzido no livro de nº 14, abaixo.

LIVROS DO AUTOR:                                                                                      
1 - “São Domingos do Prata: Berço e Origem”. (1ª 2ª e 3ª edição).
2- “Revivendo a história de São Domingos do Prata”.
3 - “São Domingos do Prata: Fragmentos de sua história”.
4- “Recontando a história de São Domingos do Prata”
5- “Dr. Gomes Lima, um dos grandes vultos da história de São Domingos do Prata”. 1ª e 2ª edição ampliada).
6- “Notas biográficas de Manoel Martins Gomes Lima, Janua Coeli de Lellis Ferreira e Dr. Edelberto de Lellis Ferreira - Três pratianos da gema”.
7- “Quatro prefeitos de São Domingos do Prata da primeira metade do século XX”.
8- “Notas sobre alguns prefeitos e eleições em São Domingos do Prata de 1890 a 1947”.
9 – “São Domingos do Prata no período imperial.” (1ª e 2ª edição ampliada).
10 -“Sabará na imprensa do império”.
11 - “Sabará: Fragmentos de sua história no período imperial”. (1ª e 2ª  edição atualizada e ampliada). 
12 - Livro digital “São Domingos do Prata: Centro irradiador de mineiridade”, contendo os livros de n.º 1 – 2 – 4 – 5 – 6 e 8 acima.
13 – Seleção de notícias sobre São Domingos do Prata antigo.
14 – Genealogia de alguns ascendentes e descendentes – Famílias das quais descendo, todas com raízes fincadas em São Domingos do Prata: Gomes Lima, Martins Vieira, Marques Vieira ou Vieira Marques, Gomes Domingues, Lellis Ferreira, Santiago. (1ª e 2ª edição atualizada e ampliada).