domingo, 25 de junho de 2017

A Estrada para Dionísio - Paulino Cícero de Vasconcellos





Paulino Cícero de Vasconcellos
          Em 1936 eu já conhecera o Dionísio, então distrito de São Domingos do Prata. Naquele ano, era lá que moravam meus pais com meu irmão mais velho, de nome Paulo Dionísio. Mas,eleito prefeito municipal, meu pai arranjou a cavalhada necessária e em companhia de minha jovem mãe e de vários amigos partiu para a sede do município. Não havia estrada que ligasse as duas localidades. Assim, saíram todos na boca da madrugada com destino a outro distrito do município, que, então, se chamava Babilônia. Anos depois, teve sua denominação alterada para Marliéria -  seu nome atual - como homenagem ao general Francês Güy Thomas de Marlière, já desavindo com Bonaparte e, por isso mesmo,  companheiro de caravana de Dom João VI, quando chegou ao Brasil, em 1.808.

Dr. Matheus e Baíca em foto da época.
          Em Marliéria, a caravana dionisiana se hospedou em casa do companheiro e amigo de meu pai, Sr. Juca Pontes. Foi, assim, que lá cheguei eu, viajando pelo mais antigo e confortável veículo de transporte que a humanidade já conhecera: o ventre de minha mãe, onde me enrosquei nos meus três meses de gestação.  E fomos todos recebidos com foguetes, baile, banquete e até fogueiras para melhor iluminação das ruas da aldeola.

          No dia seguinte, o espetáculo se repetiu a seis quilômetros de distância, no distrito de São José do Grama - hoje Jaguaraçu - em casa do sr. Juca Dias, que viria a ser no futuro sogro do advogado e meu colega de Assembleia, Geraldo Quintão.

          A recepção foi que nem a de Marliéria,  acrescida de uma  gostosa singularidade da terra: uma longa e bem cantada seresta... Meio século depois muita gente me falou com saudade e emoção sobre a excelência daquela festa.



           Agora era hora de tomarmos o trem de ferro da estrada Vitória - Minas, na Estação de Ana de Matos. Lá fomos todos até o final da linha, na cidade de Nova Era, que naqueles tempos respondia pelo belo nome de São José da Lagoa. Daí,  por estrada carroçável foi fácil chegar de carro até a cidade em que eu conheceria a luz do sol: São Domingos do Prata.

           Feita a proclamação eleitoral, seguiu-se a posse da Câmara Municipal, que, ato contínuo, seguindo a legislação da época, formalizou a eleição do meu pai como Prefeito daquela unidade municipal abençoada com 2,700 quilômetros quadrados de área territorial - hoje terra-mãe de vários municípios da região.



           Passam alguns meses e venho ao mundo, trazendo uma série de problemas para meus pais. Como levar-me à pia batismal se meus padrinhos estavam em Dionísio - João Araújo e Tia Clarice - ela, também grávida, aguardando a délivrance somente para o mês de julho.
              De fato, o primo Edson - hoje médico em São Paulo - só veio ao mundo no dia 19 de julho.

           Mas eles souberam resolver bem a questão. Portador pra lá, portador pra cá, marcaram  para 13 de agosto a data lustral, ficando a cargo deles combinarem com um padre e tomarem as providências necessárias.
       Meu pai chamou o Zé Botão, musculoso e respeitado servidor municipal, que aceitou a tarefa de levar-me com meus cinco meses de idade, levar-me a pé pelos 30 Km de trilha entre as duas comunidades. Era sair de madrugada e rolar o pé na caminho. Meus pais sairiam um pouco mais tarde, cinco horas da manhã, a cavalo e chegariam juntos a Dionísio.  Fui amamentado, enrolado em vários cobertores, acomodado em um balaio, que foi amarrado às costas do Zé Botão. Assim se planejou, assim se fez .O Zé Botão saiu às duas horas da manhã para cobrir a longa trilha no meio da mata até Dionísio.

        Às dez horas todos se encontraram na praça de São Sebastião, no epicentro do distrito, para o grande encontro batismal. 



              Na cerimônia,  o oficiante foi o  vigário “pro Tempore” da terra,  o jovem padre Pedro Maciel Vidigal. Até hoje fico pensando no gigantesco esforço que terá feito o Zé Botão para seguir todas  as trilhas, no meio da mata fechada  para cumprir seu compromisso com o doutor prefeito de entregar sua cria no lugar e na hora que ele havia  determinado.
          O batizado foi uma festa: não só a religiosa, mas, também, política e comunitária.

           A vida continuou em seu ritmo suave de pequenas comunidades  humanas, onde as pessoas viviam em intenso nível de fraternidade.

           Por aquela época chega à cidade, ou mais precisamente à Prefeitura Municipal, uma luzidia comitiva dionisiana, que não deixou de incluir meu padrinho João Araújo, o coronel José Izidoro Garcia, Peráclito Americano, Nonô de Ovídio e outras figuras gradas do teatro político da terra. Pediram ao prefeito a sonhada obra da construção de uma estrada de rodagem, que ligasse as duas comunidades: Prata e Dionísio. Meu pai, nascido que fora em Dionísio, abriu os livros e as contas do município, demonstrando a absoluta impossibilidade de realizar tal obra, dado o  volume indescartável de obras a cumprir, tendo de outro lado uma carência absoluta de recursos financeiros.
           


              
              Passa algum tempo e em encontro marcado por grande realismo rediscutem o tema e em conclusão positiva todos aceitam a tese da subscrição pública para construção da estrada, que contaria de plano com substancial ajuda e participação orçamentária da Prefeitura Municipal, no valor de quinze contos de réis, além de mais um conto de réis, que, ali mesmo, o prefeito prometeu de seu próprio bolso.

           Foi, então, lançada a campanha. Todos queriam ajudar, uns com mais e outros com menor soma de recursos. Imediatamente se iniciaram as obras, atacadas pela vertente do Dionísio. Para chefiar a legião de trabalhadores com suas enxadas, picaretas, chaulas e enxadões, além das dezenas de carroças puxadas por burro - para chefiar a turma o escolhido foi meu tio Euclides Martins Drumond, entusiasta do projeto, sempre estimulando cada qual a dar  o máximo possível de si próprio.

           Vou fazer um pequeno exercício de memória, valendo-me de apontamentos recolhidos da caderneta pessoal de meu pai. Estes foram os cinco principais colaboradores financeiros para a  execução da obra:
     Prefeitura de S. Domingos do Prata.......  quinze contos de réis (15.000.000 $000)
     Joaquim Rolla (do Rio de Janeiro).......... nove contos de réis (9.000.000$000)
     Cia  Belgo Mineira...............................   um conto e quinhentos
     Dr. Matheus.........................................  um conto de réis
     Sr. Janjão das Laranjeiras.....................  um conto de réis.

           Nenhum outro contribuinte chegou a estes valores. Verdade que o Sr. Janjão impôs uma condição para doar um conto de réis: é que a estrada ao invés de passar pela Fazenda das Laranjeiras, de Dona Cotinha, minha bisavó, passasse pelo terreiro de sua fazenda, nas Laranjeiras-Pilatos, seguindo o morro da Posse, até o alto.

           Meu pai aceitou suas condições, mas teve de pagar um preço. É que Euclides Drumond, administrador geral dos serviços, em sinal de protesto, abandonou o serviço e o comando das obras.
          
A construção da estrada  levantou uma solidariedade geral na região. Destaco entre outras as cidades de Nova Era e Nossa Senhora da Saúde –  hoje Dom Silvério -  que fizeram bolsas de subscrição e enviaram, cada uma delas, quase um conto de réis, enquanto pessoas de Marliéria, Jaguaraçu, São José do Goiabal e outras localidades abriram suas bolsas para ajudar o projeto.

           Conta-se que a inauguração da estrada foi simplesmente apoteótica, com muitas autoridades do Judiciário, prefeitos, vereadores, bandas de música, e dizem que até baile houve. Agora, eu já podia viajar de automóvel para visitar meus padrinhos e parentes em Dionísio, viajando de automóvel, ou, como era mais comum, pegando uma carona  em caminhões de carvão e de madeira. E é curioso notar que construída em anos da década de 30, quando não eram disponíveis na área recursos e equipamentos para construção, ela foi, posteriormente, pavimentada e conservou, centímetro a centímetro, o mesmo traçado original, que meu pai inaugurara.



           Quem iniciou a pavimentação da estrada foi o Governador Newton Cardoso, compadre do ex-prefeito  Weber Americano, num gesto que me pareceu dadivoso, eis que à época já havia a Cia Belgo Mineira  - hoje Arcellor Mital – instalado 54 Km de teleférico para transportar a João Monlevade o negro carvão gerado em seus eucaliptais. Metade da rodovia pavimentaram naquela época, sob os auspícios do governo estadual. Seis anos passados, na condição de Ministro de Minas e Energia de Itamar Franco, destinei recursos derivados do lucro líquido da Cia Vale do Rio Doce para que a pavimentação dos 15 quilômetros restantes fosse executada.

           A verba foi entregue ao governo do estado nos tempos do Hélio Garcia, que simplesmente a desviou para executar obras do anel rodoviário de Governador Valadares.

           Ficaram complicadas as relações entre a Vale e o governo de Minas. Pude testemunha-lo e ouvi do próprio Presidente Fernando Henrique, que era imperioso superar aquela divergência.

           Para resolver a situação o governo Azeredo concluiu a pavimentação. E de tudo o povo de Dionísio esteve sempre informado, através das ondas da Rádio Jovem Tropical, que eu criara na cidade para atender pedido de seu requerente o jovem Éder Araújo. Assim, vi o governador, então candidato à reeleição, bem na véspera do pleito, inaugurar o trecho que fora por ele asfaltado. Por tudo isso, quando se abriram as urnas eleitorais, lá, na velha terrinha de São Sebastião o ex-presidente Itamar Franco lhe aplicou uma generosa surra eleitoral.

         Quanto ao Zé Botão, cujo nome verdadeiro, ganho na pia batismal, era José Guilherme, passei bastante tempo sem vê-lo, após minha mudança para Belo Horizonte.

         Mas um dia, já no meu segundo mandato de deputado estadual, vem-me a informação de que o velho Zé estaria internado em estado grave na Santa Casa de Misericórdia. Fui visita-lo. Qual não foi minha surpresa, quando ao tentar na portaria localiza-lo, dando seu nome para pesquisa  - seu nome e  nome da terra natal -  tive dificuldade enorme para identificar andar e a clínica em que estaria internado.

         E isto só foi possível porque um  funcionário da instituição, que por ali passava, vendo o tumulto que se havia formado, aproximou-se, tomou notícia dos fatos e, subitamente, a todos interrompeu, dizendo que se lembrava do nome e afirmou com certeza que na véspera, em seu plantão na portaria,  determinara o encaminhamento de seu corpo ao necrotério da Santa Casa.

         Lá foi onde cheguei em seguida e pude ver os dois filhos do Zé, ao lado do Manuel Magalhães, proprietário da Rural Willys que levaria os filhos e o pai para nossa cidade em que ele seria sepultado. Os três e mais um servidor  da casa estavam levantando a urna, buscando conduzi-la até a rural, quando pedi que parassem, depusessem o corpo sobre a fria lousa do depósito e lhes disse que seu pai nos meus cinco meses de idade me levara dentro de um balaio preso às costas, a pé, até Dionísio para receber as águas lustrais do batismo. Permitam-me - disse-lhes - que agora eu possa ajuda-lo em seu último passo para a eternidade.

          E, assim, o fiz em cena de grande comoção...

sábado, 28 de janeiro de 2017

1964 GEBA - CONSTRUÇÃO DO PRÉDIO - Paulino Cícero de Vasconcellos


 


PAULINO CÍCERO DE VASCONCELLOS

     Meu caro Fábio:

     Complementando um pouco mais "Fragmentos da História do Dionísio e sua gente", mando-lhe a inclusa cópia do pedido de criação do Ginásio Estadual da terra. A assinatura que despacha o documento é do Governador Magalhães Pinto - que recolhi, pessoalmente, acompanhado do Prefeito Raimundo Campolina, que pode ? (assinar) comigo o documento.

     Bom, também, dizer que prédio do Ginásio foi, integralmente, construído com uma verba de 25 milhões de cruzeiros, que arranquei da Vale do Rio Doce e, mais, que todo o protocolo para a liberação dos recursos da Vale foi elaborado por mim, pessoalmente, incluindo os desenhos gráficos da obra, que ousei fazer embora não me julgue um bom desenhista e e mesmo um conhecedor de matemática para organizar todos os orçamentos e relatórios, que foram exigidos pela Vale do Rio Doce.

     Tudo isto me ocorre, quando vejo em sua obra o gigantesco esforço desenvolvido pelo Antônio Caetano "et allisi" para construírem e implantarem a E.E. Dr. Gomes Lima - de que, aliás, fui aluno por mais ou menos vinte dias...
Com estima, 
Paulino Cícero



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A HISTÓRIA DA FARINHA SOMI 20 - Rosemary Penido Alvarenga

Do livro "Morro Escuro", de Rosemary Penido Alvarenga.

A CARNE VEGETAL

- O que mais me preocupa, Dr. Caux, é o raquitismo do povo. Muitas doenças, a maioria é causada pela alimentação deficiente, as crianças sem reservas para suportar uma infecção...

Meu sogro e eu trocávamos ideias.
Era uma conversa séria, mas descompromissada.
O Dr. Caux deixava de lado o jornal, acomodava-se numa cadeira reclinável, o vento da tarde a brincar com seus cabelos leves, suavemente, como uma carícia.


Ele sofria de asma persistente. A respiração se fazia difícil, o corpo estava mais magro, o nariz sobressaía no rosto fino, a testa aumentada por entradas fundas.

D. Didina passou rapidamente. Foi ver o biscoito no forno, pois um cheirinho bom já nos despertava a gula.

Meu sogro concordou comigo: - O brasileiro se alimenta muito mal. 
A pobreza é grande e falta esclarecimento, higiene. Falta uma campanha educativa do governo.

- É triste o que a gente vê por aí, doutor. Na zona rural, então, é um horror! Nenhuma assistência, o povo não planta, não tem horta... às vezes uns pés de banana, de mandioca, algum pé de cana e, quando muito, uns pezinhos de feijão.

- Lá, pelo menos, eles têm o seu franguinho, de vez em quando, algum capado, como eles dizem, alguma paca. Na cidade não comem proteína, tão necessária. A carne está tão cara!

 - Poderíamos resolver nosso problema na cozinha e não na farmácia, como se expressou Paiva Ramos.

 - O Brasil, continuou o Dr. Caux, poderia resolver muito bem a carência de proteínas com o uso da soja. Terreno, não falta. Poderíamos alimentar não só os brasileiros, mas outras muitas nações se nos dedicássemos à agricultura.

 - Mas soja substituiria mesmo a carne?

 - O feijão soja, Mauro, é uma planta milagrosa! Além de fácil cultura, é riquíssimo em proteína, nada inferior à carne, ao leite e ovos. Custa muito menos e ainda serve de adubo para o solo, enriquecendo-o, quando empobrecido.

 - Fale mais dela, Dr. Caux. Quem sabe a gente promove uma campanha em Itabira? Falar de agricultura era com ele mesmo! Sabia tudo. Entusiasmava-se. Poderia me dar informações por um dia inteiro, se eu quisesse.

 - No oriente, é alimentação básica. Por isso o povo é taludo, chega à velhice com saúde e disposição para o trabalho. Atinge idades altíssimas!

 - Em vista de nosso nível de vida...

 - Pois é. Nessa última guerra, a farinha de soja teve papel notável na ração, dos soldados. Os combatentes alemães levavam na mochila o suficiente para três dias.

- Sabe que estou me interessando? Já tinha lido a respeito, mas não sabia tanto. Dizem que é chamada carne vegetal; não é?

 - Carne vegetal, sim, Mauro. A proteína que há em um quilo de soja equivale à de dois quilos e meio de carne, ou à de treze litros e meio de leite, ou de sessenta e sete ovos!

 - Puxa! É coisa para não se desperdiçar! Eu não sabia que era tão rica...

 - A soja poderia salvar a raça brasileira!

 - Vou estudar o caso, Dr. Caux. Vou imaginar um programa, procurar instruir o povo daqui os estudantes, as professoras. Talvez incentivar o seu plantio.

 - É uma boa campanha. Se você conseguir... difícil é mudar os hábitos do povo! A soja tem gosto forte; quem não conhece, estranha.

D. Didina nos chamou para o café. A mesa estava farta, os biscoitos de polvilho se rachando de tão grandes, ainda nos queimando as mãos.

Os meninos se regalavam com as jabuticabas, pendurados nos galhos mais altos, confundidos com as folhagens. Os frutos negros, como bolinhas de gude, brilhavam nos caules, suculentos.

 - Deixe eles - disse minha sogra. Pelo menos, a gente come em paz.

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PRIMAVERA INESPERADA

Fiquei com a cabeça quente com a tal da soja! Imagine, uma planta fácil de cultivar, como me disse o Dr. Caux, tão rica e tão desconhecida para nós, os brasileiros!

Troquei ideias com o jovem agrônomo Paulo de Souza, recém-chegado à cidade para tocar o Posto Agropecuário.

Falei com outro agrônomo, o meu compadre estrangeiro George Grunnup. Convenci-o a plantar a tal leguminosa.

Pedi a alguns fazendeiros que o fizessem. Pensei no que me disse o Dr. Caux sobre a dificuldade de mudar, de uma vez, os hábitos alimentares.

Quando o George me trouxe em mãos a soja, pronta para a colheita, inventei passá-la no moinho conjuntamente com o milho, em proporções de 80% para esse e 20% de soja para não comprometer o sabor. Estava inventado o Somi-20, como batizamos nosso produto. Encomendamos até saquinhos, com rótulos. Quando o Somi-20 me veio, empacotado, todo lindo, era como se recebesse um filho; quase a mesma emoção. Pensei em torná-lo conhecido, divulgá-lo, fortalecer as crianças não só de Itabira, mas de todo o Estado, quem sabe do Brasil?

Eu tinha sonhos visionários, um ideal do tamanho do mundo. Não fazia economia.
Introduzi o alimento nas escolas, para as sopas. Pus à venda nos armazéns, fiz palestras, imprimi folhetos pagos pelo próprio bolso.

Cheguei a debater com médicos até na Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte.

Procurei apoio da Prefeitura, mas ela era surda aos meus propósitos. Não lhe interessava o programa, porque era meu e eu era de partido diferente. A guerra de siglas continuava. A ignorância da perseguição política estava acima de qualquer ideal. Eu era sempre perdedor. Chegaram a jogar dinamite em minha varanda para festejar uma vitória!

Quando o Grunnup deixou Itabira, morreu o Somi-20, adormecendo o meu sonho.

Eu era só um médico do interior com visões de príncipe. Cumpria voltar a meu mundo, o Brasil. Cumpria continuar a ver o raquitismo, as doenças infantis arrastando crianças à morte.
Querer mudar o sistema era dar murro em ponta de faca; eu não tinha esse poder.

Mas, agora, que bela surpresa! Precisei chegar aos meus 85 anos para descobrir que a semente estava viva. Ela começa a brotar, alimentada por minhas lágrimas de médico antigo, como diria o Drummond.

A prefeitura inaugura o Centro de Beneficiamento de Soja "Dr. Mauro de Alvarenga".
Não estranhei a homenagem; eu mereço. Até seria injusto colocar outro nome que não fosse o meu. Não vou me fingir de modesto a essa altura da vida, isso não.

O velho tem o direito de ser autêntico, de se dar esse direito, pelo menos isso.
São quarenta anos passados, acho que sim. O prefeito atual foi meu aluno, o Luiz Menezes. O Secretário de Saúde foi amigo de infância de meus filhos, o Marco Aurélio. Neles ficaram minhas palavras; meus ensinamentos não foram em vão. Neles brotou minha pobre semente adormecida. É primavera.

Quem sabe agora explode meu sonho? Quem sabe o nosso exemplo arrasta outras belas iniciativas? Não estarei aqui para ver, mas com as mãos feridas com a tal ponta de faca, vejo meu sangue fecundar a terra.

Como dizem meus netos: - Valeu!

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Sebastião Leme de Caux, o colaborador que enviou esta matéria destaca a trajetória do Dr. Mauro Alvarenga um médico de Itabira, humanista e caridoso que chegou a ser prefeito de sua cidade. Informou ainda que o Dr. Mauro era casado com uma filha de Raoul de Caux, (sua tia) e que Rosemary Penido Alvarenga, a autora do livro "Morro Escuro" é nora de Raoul de Caux.

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sábado, 12 de novembro de 2016

TOTÓ VIEIRA - Maria das Graças Vieira e Jáder Reis





 Cada um deve aprender a esculpir a sua verdadeira imagem para chegar a ser capaz de refleti-la sem defeitos, e a escrever por si mesmo sua história para encontrar sempre nela, nesse caudal de recordações, um incentivo para sua vida. Quanto mais brilhantes forem suas pagina, maior será a felicidade que experimentará ao lê-las.
Mas, este livro deverá ser escrito com a pena do espirito, em paginas transparentes e indestrutíveis, a fim de que o semelhante, ao lê-las, possa orientar a sua vida e inspirar-se nelas”.
González Pecotche



TOTÓ VIEIRA
ANTÔNIO VIEIRA GUIMARÃES

Nasceu em Dionísio no dia 11 de maio de 1909, filho de José Vieira Guimarães e Georgina Rosa Magalhães. Teve 12 irmãos: José, Joaquim, Maria, Manuel, Ana, Adelina, Emmydgia, João, Sebastião, Albertina, que faleceu precocemente, Angelina e a caçula, também chamada Albertina.
Seu pai, Sr. José Vieira Guimarães, também conhecido como Juca Neco, era um dos fazendeiros mais abastados da cidade, dono de vastas extensões de terras na Fazenda do Engenho, no Rosário, Aguapé e Melo Viana. Sua mãe, proveniente de Rio São Francisco, hoje Florália, mudou-se para Dionísio com seus pais aos 5 anos de idade.
De criança, Totó era um garoto alegre e inteligente. Estudou no Grupo Escolar Dr. Gomes Lima, que foi erguido no terreno doado pela sua avó, D. Salvina Rosa Magalhães, e inaugurado em 1911. Sua professora do 1º e 2º anos foi D. Naná Riscalla Albeny, e a do 3º e 4º anos foi D. Luiza Fernandes Ferreira Nunes (D. Zinha, irmã do Sr. Tacinho). Era o primeiro aluno da sala e, possuidor de uma memória privilegiada que manteve por toda a vida, dava o ponto logo depois de passado no quadro e era sempre o primeiro a resolver os problemas de aritmética.
Dentre seus muitos colegas do grupo e amigos de infância podemos citar Trajano, José Riscala Albeny, Adail de Souza Reis, José de Oliveira, Américo Dias, Sebastião de Sô , José da Penha, Nereu, Joaquim Ambrósio e muitos outros, além de Irene Araújo, Cocota (Maria Martins Drumond), Berenice de Souza Reis e Guiomar Garcia.
Desde pequeno começou a trabalhar na fazenda de seu pai. Já rapazinho e por muitos anos trabalhou na fazenda como carreiro, puxando cana, lenha e mantimentos.
Casou-se com Anita Martins de Carvalho no dia 20 de julho de 1935, aos 26 anos, e ela com 21. Ela era natural de Santana do Alfié e veio ainda menina para Dionísio. O casamento, celebrado por Pe. Pedro Maciel Vidigal, foi realizado na própria fazenda.
O casal teve 9 filhos: Zezé, casado com Águida (Gudicha), Lauzinho, casado com Dorzinha; Tarcísio (falecido), casado com Leda; Filhinha, casada com Antônio de Jajá; Geraldo (falecido);  Georgina, casada com Milton Ulhôa; Conceição, casada com Osvaldo Araújo; Maria, casada com Jader e Antônio, casado com Maria Helena.
Sempre unidos, formando um casal exemplar, celebraram suas Bodas de Ouro em 1985 e Bodas de Diamante em 1995. Estiveram casados por 67 anos, até a morte de D. Anita em 13 de julho de 2002, que deixou o Sô Totó profundamente abalado.
Sô Totó foi um fazendeiro próspero. Apesar de manter sempre um bom número de cabeças de gado, dedicava-se mais à agricultura – cultivava cana, milho, feijão, arroz e café. Sua fazenda tinha também um engenho, monjolo e dois moinhos, além de um alambique para a fabricação de aguardente e açúcar.
Em 1978 mudou-se com D. Anita para a cidade, onde era querido por todos. O Tarcísio deu continuidade aos trabalhos na fazenda do Engenho. A ponte perto da fazenda ainda hoje leva o seu nome –  Ponte de Totó Vieira.
As virtudes que Sô Totó sempre cultivou foram a honestidade, a honradez, o senso de justiça e a bondade. Respeitoso e conservador, dirigia-se às pessoas tratando-as, mesmo as pessoas mais jovens, por “senhor” e “senhora”.
Ao contrário do que geralmente ocorre com as poucas pessoas que conseguem chegar à idade de quase 102 anos, quando faleceu, Sô Totó era plenamente lúcido, dono de uma memória privilegiada, de um alegre senso de humor e de uma saúde invejável.
Em 11 de maio de 2009, dia de seu aniversário de 100 anos,  Sô Totó foi homenageado pela Câmara Municipal de Dionísio com uma moção de aplauso. A iniciativa do então presidente da câmara, Joel Bastos, foi aprovada por unanimidade pelos vereadores e contou com o apoio do então prefeito, Weber Americano. Nesse dia foi inaugurada a sede própria da Câmara Municipal, cuja fita inaugural foi cortada por Sô Totó Vieira, que ficou extremamente tocado pela homenagem.
A celebração dos 100 anos do patriarca foi em uma churrascaria no Minas Shopping, em Belo Horizonte, e contou com a presença maciça da numerosa descendência que ele e D. Anita iniciaram em 1936 com o nascimento de Zezé, o primogênito.
Sô Totó ainda teve o privilégio de comemorar os 101 anos, sempre cercado de carinho pelos familiares, que tinham por ele uma verdadeira veneração.  
A três meses de completar 102 anos e sem passar por uma única cirurgia, Sô Totó internou-se pela segunda vez na vida num hospital, o Vital Brasil, em Timóteo, onde, poucos dias depois veio a falecer, totalmente lúcido, no dia 24 de fevereiro de 2011. Deixou uma grande descendência, constituída de 9 filhos, 32 netos, 44 bisnetos e 3 tataranetos.
 Por Maria das Graças Vieira Reis e Jader Araújo de Souza Reis, em outubro de 2016

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

BEDEU & IRACEMA - Dorotea Aparecida Soares

Bedeu e Iracema
Uma história de amor de uma GRANDE FAMÍLIA

Lá pelos anos 1920 veio a passeio da localidade dos Gomes para a Brejaúba em visita ao Sr. João Ferreira, um esbelto rapaz chamado Bedeu. Gostando do lugar, voltou várias vezes.

Por coincidência em 1923, seu pai Lulu, que estava viúvo, casou-se com D. Júlia, também viúva de Mundico, tio de uma linda moça chamada, Iracema.

Os laços de amizade surgiram com as visitas que Bedeu fez aos moradores da Fazenda da Brejaúba onde residiam com os avós seis moças, inclusive Iracema.

Encantou-se por ela, e logo a pediu em casamento, o que não foi aceito pela mãe D. Quininha, que pediu um prazo de 4 anos para a realização do casamento, justificando pela pouca idade da pretendida de Bedeu, a linda Iracema. Ele pediu que pelo menos dividisse o prazo mas, Dona Quininha não aceitou.

Passados os 4 anos, volta Bedeu entusiasmadíssimo e pede para marcar o sonhado casamento, que aconteceu em 31/10/1928. O casamento realizou-se na localidade do Retiro, na casa de Joãozinho Abade e Ana.

Construíram no Retiro a sua residência e ai nasceu a primeira filha Lita.
Dois anos após mudaram-se para Dionísio, onde nasceram Zélia e Nêgo.
Mudaram-se depois para o Macuco, onde perderam o filho Nêgo mas em compensação tiveram a alegria de enriquecer a família com mais três filhos: Nhonhô, Lade e Edil.
Daí foram morar no Alemão, onde nasceu a caçula Dorinha.
Transferiram a residência para a localidade dos Gomes e após 3 anos voltaram para Dionísio.

Quando completaram seus 72 de anos de casados formavam uma grande família com sete filhos, vinte e sete netos, quarenta e seis bisnetos e seis trinetos. 


Comemoração dos 72 anos de casamento entre Bedeu e Iracema em 30/10/1999
Última foto feita em família, na comemoração dos 72 anos de casamento entre Bedeu e Iracema.  
Em 11/11/1999 falece Iracema aos 93 anos de idade. Bedeu faleceu em 11/11/2003 aos 102 anos de idade.


Iracema e Bedeu rodeados pelos filhos: Dorinha, José Soares, José Geraldo, Edil, Lita e Zélia.

Bedeu, Dorinha e Iracema





Homenagem da Câmara Municipal por ocasião da comemoração do centenário do nascimento.

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Os longevos irmãos de Bedeu
Albertina de Cássia da Purificação, aos 96 anos, sendo homenageada ao lado de Bedeu no Dia do Idoso em 2001.  No microfone Elze Bicalho e ainda Dorinha e seu irmão José Soares.

Luiz Gonzaga aos 98 anos

Algemiro Soares, aos 85 anos, quando Bedeu completou 102 anos.

Antonio do Amaral aos 93 anos.

Nair Soares aos 89 anos

Leopoldina aos 91 anos.

Rosita Elena aos 99 anos.
Judite aos 91 anos.

Nair, Bedeu e Albertina
Algemiro e Bedeu em um “joguinho”.
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Fotos para guardar






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Descendentes